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Após gig emblemática no Warung, Kevin Di Serna fala sobre momento-chave na consolidação de sua trajetória
Artista argentino analisa a recente apresentação no club catarinense e reflete sobre os caminhos ao longo de sua evolução
Nos últimos anos, Kevin Di Serna deixou de ser um nome promissor da cena argentina para se consolidar como um artista de projeção internacional.
Partindo de Santa Rosa, La Pampa, o DJ e produtor construiu uma trajetória marcada por lançamentos em selos de relevância global como Innervisions, All Day I Dream, Last Night On Earth, Sudbeat, Lost & Found e Balance Music, além de uma agenda que passou por clubes e festivais estratégicos na Europa, Oriente Médio e América Latina.
Sua apresentação recente no Warung Beach Club, realizada no início de dezembro, sintetiza bem esse momento de carreira. Mais do que uma estreia ou uma participação pontual, a gig mostrou um artista em plena maturidade criativa, extremamente capaz de dialogar com a tradição progressiva do club catarinense. A resposta do público e o contexto da noite reforçaram a leitura de que Kevin hoje ocupa um espaço de confiança dentro do circuito internacional.
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Ao longo de sua trajetória, Di Serna construiu uma identidade sonora que atravessa o progressive house, o house melódico e outras vertentes contemporâneas, sempre sustentada por uma abordagem emocional e atmosférica. Paralelamente, seu discurso artístico passou a incorporar de forma mais consciente temas como presença, intenção e conexão.
Nesta entrevista, Kevin Di Serna fala sobre a experiência no Warung, revisita os principais pontos de sua evolução artística e comenta como vem equilibrando crescimento, coerência autoral e novas frentes de atuação em um momento importante da carreira.
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Q+A: Kevin Di Serna
Suas produções costumam misturar progressive house com texturas orgânicas e um tipo de minimalismo emocional. Olhando para a sua evolução como produtor, quais elementos do seu som você sente que sempre foram inegociáveis - e quais mudaram mais ao longo do tempo?
Olá, pessoal do Brasil. Obrigado pelo espaço! Eu diria que o que permaneceu desde o começo, e que sempre vai estar presente tanto nas minhas faixas quanto nos meus sets, é o lado emocional e melódico.
A música que sempre me atraiu carrega atmosfera, clima, esses tipos de instrumentos e texturas que nos tiram do chão, que dão essa sensação de flutuar. Ao mesmo tempo, o ritmo está ali para manter o pulso, para nos conectar com a terra.
Nunca gostei de me prender a um gênero específico. Sempre preferi conectar estilos diferentes através das harmonias e das melodias. Ao longo do tempo, fui experimentando e transitando por ritmos distintos - isso é o que mais muda. O aspecto melódico, esse, realmente permanece.
Existe uma sensação de espaço e introspecção na sua música que funciona muito bem em sets longos. Como você pensa na construção de narrativa quando está tocando? E o que diferencia um set apenas funcional de um set que realmente conta uma história?
Eu sempre prefiro contar uma história e construir uma narrativa clara. Em festivais, onde os sets costumam ter cerca de duas horas, é inevitável ser um pouco mais funcional.
Mesmo assim, tento criar um desenvolvimento narrativo e, principalmente, entregar um encerramento à altura, seja no pré-closing ou no closing.
Eu gosto de enxergar a música eletrônica não apenas como algo para dançar, mas também como um meio de conexão mais profunda consigo mesmo e com o ambiente ao redor.
Vejo a pista como um plano energético que precisa ser elevado, um espaço onde mensagens de consciência podem ser compartilhadas.
A relação entre o DJ e o público, para mim, é quase terapêutica. A música tem esse poder porque é vibração, e essa vibração pode ser direcionada de muitas formas. No meu caso, escolho conduzi-la como uma ferramenta para contribuir com a consciência coletiva.
Sua abordagem melódica é muito sutil, quase arquitetônica. O seu processo criativo é mais intuitivo ou mais técnico? E como você equilibra exploração e refinamento no estúdio?
Sinto que tanto o processo quanto o resultado final passam por encontrar um equilíbrio entre aquilo que você quer comunicar artisticamente, a intuição e as ferramentas técnicas necessárias para transformar isso em realidade. Um não existe sem o outro - os três aspectos são essenciais.
Explorar é fundamental para descobrir novos recursos, e depois refiná-los, até que estejam completamente integrados à música.
A Argentina revelou alguns dos artistas mais influentes do progressive house mundial. De que forma a cena argentina - seus clubes, seu público, sua história - moldou sua identidade artística de maneiras que talvez não sejam tão evidentes para quem está fora do país?
Minha primeira escola foi a minha própria exploração musical. Depois, fui muito influenciado por um primo meu, que me apresentou aos CDJs e a uma música mais avançada. Mas minha verdadeira universidade foram lugares como Pacha Buenos Aires, Moonpark, Bahrein, além de festivais como o Creamfields. Todos esses espaços moldaram profundamente a forma como eu entendo e vivencio a música, sempre muito conectada ao progressive house.
Quando comecei a viajar mais pela Europa, absorvi influências de outros estilos, e isso fez meu som evoluir para além do progressive puro. Passei a transitar por gêneros como techno, indie e outros, sempre com a intenção de criar um fio condutor melódico que pudesse abraçar diferentes ritmos.
Suas colaborações e remixes costumam expandir seu universo sonoro, em vez de repetir fórmulas. O que guia sua decisão de colaborar com alguém? O que você busca nesse diálogo artístico?
As colaborações sempre surgem com artistas e amigos que são muito próximos de mim. Elas fluem naturalmente dessas relações. A primeira coisa que precisa existir é a admiração mútua, isso é a base.
Depois, vem uma compatibilidade sonora orgânica. Felizmente, estou cercado de amigos que são produtores incríveis, pessoas que conseguem agregar muito à minha música, assim como eu posso contribuir com a deles.
O que eu também amo nas colaborações é que o sucesso é compartilhado. Alcançar uma conquista juntos é algo que me dá muito prazer. Compartilhar de forma equilibrada, onde ambos se beneficiam, é algo profundamente gratificante e bonito.
A cena global de hoje parece dividida entre ciclos digitais acelerados e um desenvolvimento artístico mais profundo, de longo prazo. Como você mantém sua identidade e coerência artística em um ecossistema que muitas vezes prioriza a velocidade?
É verdade, tudo acontece muito rápido e existe uma saturação enorme de informação. No meu caso, há projetos que sinto que precisam de muito mais tempo para se desenvolver, e eu respeito esse processo.
Ainda tenho faixas guardadas que carregam muito valor emocional e artístico, mas eu deixo que elas amadureçam. Ao mesmo tempo, existem outras que têm uma função mais clara na pista e acabam avançando mais rápido.
Lido com isso de forma muito natural. O mais importante para mim é que a urgência nunca venha à custa da coerência artística, e que essas duas coisas possam coexistir.
Sua apresentação recente no Warung aconteceu em um momento simbólico para o club. Do ponto de vista da cabine, o que tornou aquela noite especial - musicalmente, emocionalmente ou na conexão com o público?
Tocar no Warung foi algo incrivelmente especial. Desde o momento em que recebi a notícia, parecia um sonho se realizando. Quando adolescente, eu assistia a vídeos do club, vendo os melhores DJs do mundo compartilhando música naquele nascer do sol tão icônico.
Poder dividir minha música ali foi algo que eu aproveitei profundamente, e muitas das sensações daquela noite ainda estão muito vivas em mim. Ver uma pista completamente conectada e energizada, estar na cabine com Sasha & John e ouvir eles tocando minhas músicas no horário de pico do set… tudo isso banhado por aquela luz laranja do sol nascendo, todo mundo dançando. Foi mágico.
O Warung sempre foi um espaço onde o progressive house atinge uma intensidade muito particular. Isso influenciou a forma como você construiu seu set? E existe algum momento da noite que represente, para você, o que o Warung significa como artista?
Teve um momento muito especial quando toquei um remix de “Dust It Off”, do The Dø, uma versão que fiz junto com o Santiago Teilagorry. Uma parte do público começou a cantar junto, com muita energia e emoção. Compartilhar aquele instante me deu arrepios.
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Imagens: Divulgação

