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Porque talento não basta e artistas precisam pensar como marcas? Falamos com Diogo O'Band

Quando ser DJ deixa de ser só sobre música... e vira sobre identidade. Confira essa entrevista exclusiva!

  • Nazen Carneiro
  • 3 December 2025

O debate sobre carreira na música eletrônica ganhou novas camadas à medida que artistas começam a perceber que a cena eletrônica não recompensa apenas quem produz boas músicas ou quem toca bem.

O público mudou, a forma de consumir mudou e a disputa por atenção tornou-se tão estratégica quanto o próprio processo criativo. Nesse cenário, pensar como marca deixou de ser um “extra” e passou a definir quem cresce e quem desaparece.

Artistas por sua própria vontade interna e intrínseca querem ser apenas artistas: ou seja, querem ser livres para dedicar seu tempo precioso e criativo à pesquisar músicas, sonoridades, tecnologias, sentir a vibração do seu tempo, compreender o mundo a sua volta e buscar traduzir isso na sua musicalidade. Fato: o ser humano artista tem sido forçado a uma realidade, para muitos, cruel.

A discussão sobre “DJ de Instagram” é mais atual do que nunca. Em um mundo pós-moderno pré-apocalíptico onde músicas são produzidas e lançadas para viralizar como ringtones ou como hits virais de redes sociais, curtos como um sentimento volúvel, um drop lançado ao vento, um amor líquido que escorre pela tela dos celulares apontados todos na pista para a estrela da festa, o/a DJ.

Quando Darwin descreveu a lei da evolução através da seleção natural talvez ele estivesse imaginando esse DJ que se recusou a encarar a realidade de que ele também é uma marca, uma mensagem e que a música também é um conteúdo, mas não precisa (e não deve) ser descartável.

Hoje, cada artista é avaliado pelas não somente por streams ou posições em lineups, mas sobretudo pelo significado - aquilo que o diferencia, que o torna reconhecível e que faz o público retornar. Nesse sentido, talento se tornou apenas o ponto de partida. A construção de marca passou a ser o motor que organiza narrativa, percepção e longevidade. É nesse cruzamento entre arte, identidade e estratégia que se desenha a nova lógica de crescimento dentro da cena eletrônica.

A literatura especializada já aponta há décadas que marcas fortes não se definem por estética, mas por significado. O pesquisador e professor David Aaker, uma das maiores referências em brand strategy, descreve “marca” como um “ativo estratégico capaz de criar preferência sustentada, gerar diferenciação psicológica e construir memória” - conceitos diretamente aplicáveis ao universo artístico. A narrativa, consistência, símbolo e contexto tem muito valor.

Mas não precisamos ir tão longe para destrinchar este assunto. Diogo O’Band, da NOMMAD Media, é um profissional brasileiro que se destaca como estrategista responsável por campanhas que, somadas, ultrapassam 400 milhões de streams. Diogo esteve por trás de operações que moldaram carreiras de nomes como JORD, Bruno Furlan, Silver Panda, Fatsync, Paranormal Attack, M4uz, Gottinari, Jho Rosciolli, Bruna Strait e outros artistas que movimentam diferentes segmentos da música eletrônica.

Sua abordagem conecta psicologia arquetípica, análise de comportamento, leitura de mercado e construção de narrativa - um conjunto que posiciona o artista não apenas para performar bem, mas para existir de forma reconhecível em um ambiente competitivo. Para saber mais sobre tudo isso, Nazen Carneiro convidou Diogo O’Band para um bate papo exclusivo que você confere com exclusividade aqui na Mixmag Brasil.

Q+A: Diogo O’Band

"Música boa não é suficiente". O que exatamente falta quando o artista tem talento, mas não constrói uma marca?

Talento sem marca é só mais um "prodígio" perdido em meio a tantos outros prodígios igualmente irrelevantes. A indústria está cheia de gente boa e que ninguém conhece. Sem marca, o artista vira alguém que ninguém lembra, ninguém espera, ninguém sente falta...

O que diferencia um artista com branding estruturado de um apenas talentoso?

O artista com branding estruturado controla o mercado. Ele dita estética, pauta conversas, cria símbolos, gera reconhecimento instantâneo e acumula ativos que não evaporam quando um lançamento performa mal.

Quando o artista deve começar a pensar como marca?

Quando quiser ser levado a sério. Quem espera "um hit" para pensar em branding já está do lado errado da equação e 10 anos atrasado. Esperar resultados para criar estratégia é como esperar se afogar para comprar colete. Não vai dar tempo.

Quais elementos definem um branding eficaz na música eletrônica?

Três pilares:

Arquétipo: a força psicológica que orienta a percepção.

Estética: linguagem visual consistente, reconhecível e alinhada ao som.

Narrativa: a história que costura tudo isso e transforma lançamentos em capítulos, não em tiros isolados.

Branding eficaz é aquele que cria personalidade, contexto e memória emocional.

O que é "exposição estruturada"?

É parar de aparecer só quando está desesperado ou lembra que precisa postar alguma coisa. Exposição estruturada é presença com direção e com intenção. Cada aparição tem função, reforça identidade e empurra o artista na direção certa. É o oposto de "postar qualquer coisa e rezar pra dar certo".

Como equilibrar autenticidade com construção de marca?

Autenticidade não é fazer o que der na telha. É saber quem você é e amplificar isso de forma inteligente para gerar identificação. Oportunismo parece falso porque geralmente é falso. Marca boa nasce do que o artista já é, só que lapidado, intensificado e estrategicamente exposto.

Quais sinais mostram um artista dependente de hype?

Engaja quando viraliza, some quando não.Estética que muda como humor de adolescente.
Discurso vazio, dependência de trends, comportamento de "qualquer coisa pra chamar atenção". Esse tipo de artista cresce rápido e implode do mesmo jeito.

Muitos artistas associam sucesso a números. Como você avalia o papel dessas métricas no fortalecimento de uma marca artística?

Honestamente, olhar só para número é coisa de gente preguiçosa e me dá sono. Métricas são excelentes se você souber como interpretá-las, se não, viram mais uma dor de cabeça do que uma bússola. As métricas não são o objetivo principal, elas são sintomas do que você está fazendo.

Muitas pessoas olham para as métricas erradas como likes, compartilhamentos, seguidores, as famosas métricas de vaidade. Quando deveriam estar olhando para o número de shows que fazem e quanto dinheiro estão ganhando com isso. O resto é secundário e irrelevante.

Entre JORD, Bruno Furlan, Silver Panda e Paranormal Attack - quais estratégias funcionaram de verdade?

Eu não trabalho para "embelezar" carreira, eu trabalho para criar consistência de percepção. O ponto em comum entre esses nomes é simples: todos aceitaram jogar o jogo de longo prazo.

Isso significa abrir mão da ansiedade de parecer tudo ao mesmo tempo e começar a ser alguém muito específico na cabeça do público.

Sem entrar em detalhes confidenciais, o que funcionou de forma brutalmente eficaz com eles passa por alguns princípios:

Definir um eixo identitário e não trair esse eixo a cada tendência nova.

Tratar lançamentos como capítulos de uma história, não como ações isoladas.

Ajustar o arquétipo e o discurso para o público certo.

Blindar a marca e o psicológico do artista contra o humor do mercado.

Maiores equívocos que arruínam branding (os clássicos):

Achar que visual bonito = marca.

Mudar de identidade como troca de foto de perfil.

Não saber para quem está falando.

Ser refém do hype do momento.

Depender só da música para ser relevante.

Copiar referências sem entender o porquê.

Ter redes sociais caóticas.

Medo de assumir postura forte e parecer alguém.

Quais fundamentos guiam a NOMMAD Media?

Eu não opero com "feeling" e muito menos com essa visão imediatista que infelizmente domina o mercado. Meu trabalho é xadrez 3D: enquanto muita gente está preocupada com o post da semana que vem, eu estou projetando o impacto dos movimentos de hoje em 5 anos; analisando os cenários possíveis para garantir que cada movimento leve o artista a um ponto onde ele se torna inevitável.

Eu uso no meu dia a dia uma combinação que quase ninguém tem paciência para dominar: psicologia arquetípica aplicada à comunicação, análise de tendências e números, comportamento humano, sociologia, leitura de mercado, narrativa estratégica e posicionamento claro.

Eu analiso padrões culturais, estéticos, emocionais e faço meus artistas se moverem exatamente no encaixe entre o que o mercado pede, o que eles querem e o que eles PRECISAM fazer para a carreira realmente virar.

A verdade é que meu trabalho só funciona porque eu sou obcecado. Eu estudo o tempo inteiro, de tudo.

A NOMMAD é referência porque eu não deixo artistas seguirem o "feeling". O emocional da carreira e criação é com eles. A estratégia fria e calculista é comigo e eu levo extremamente a sério trabalhar com o sonho de outra pessoa.

Eu reposiciono, prevejo, corrijo rota e coloco cada um no único lugar que importa, o sucesso na visão de cada um deles.

Exemplos fora da cena que te influenciam?

Um bom estrategista jamais revela suas referências. Não é novidade para ninguém que o mercado é feroz.

Por isso, eu deixo minhas influências onde elas funcionam melhor: na sombra.

O público vê o resultado, não o mecanismo.

E é exatamente isso que mantém a NOMMAD sempre dois passos à frente.

Quanto branding depende de marketing digital e PR?

Totalmente interdependente. Branding define quem você é; marketing amplifica; PR legitima. Quando esses elementos trabalham juntos, o artista sai do ciclo de "postar música" e entra em construção real de patrimônio simbólico.

Tendências que moldarão o futuro do branding musical:

A tendência central é brutal de simples: as pessoas querem pessoas interessantes.

Não tem edição que salve artista entediante. Não tem trend que conserte personalidade vazia. O público está saturado de clones, copiadores, performers de algoritmo e "personas" fabricadas.

O futuro pertence a artistas que têm vida interna - referências, valores, visões, contradições, humor, densidade, humanidade.

Um conselho direto para quem quer pensar como marca:

Pare de pensar como músico e comece a pensar como fenômeno cultural. Música é ferramenta.

Defina quem você é, o que representa e por que alguém deveria se importar. O resto nasce disso e da estratégia.

Imagens: Manoel Fer

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