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Maurizio Schmitz fala sobre o lançamento de sua gravadora, mauromusica, mais de 20 anos após a ideia inicial

Depois de nascer como uma série de festas em 1999, o projeto agora virou um selo e abre uma nova fase com a compilação EINER REIN. EINER RAUS

  • Marllon Gauche
  • 22 July 2026

Antes de existir como selo, a mauromusica já rondava a cabeça de Maurizio Schmitz desde o fim dos anos 90, quando a ideia original era lançar discos, mas o momento ainda não oferecia estrutura ou experiência suficiente para isso acontecer.

Em vez de começar pelos releases, a mauromusica primeiro ganhou vida através das festas, em encontros que ajudaram Maurizio a testar sua visão de pista e curadoria. Aos poucos, o projeto deixou de ser apenas uma ideia guardada e passou a existir como uma extensão da sua relação com a música.

Nesse intervalo, Maurizio construiu uma trajetória nos bastidores da cena eletrônica. Trabalhou como DJ, promoter, agente e manager, além de manter uma relação próxima com Sven Väth e com o universo da Cocoon. Essa vivência deu ao projeto aquilo que faltava no começo: tempo, repertório e confiança para entender o que a mauromusica poderia ser como label.

Esse novo capítulo começa com EINER REIN. EINER RAUS., compilação de estreia que reúne seis artistas e apresenta a gravadora a partir de uma curadoria voltada a faixas com atmosfera e narrativa próprias. O lançamento também deixa claro que a mauromusica não nasce apenas como mais um selo em meio a tantos outros, mas com o intuito de conectar música, arte e design.

Na entrevista a seguir, Maurizio fala sobre as origens da mauromusica, as festas dos anos 2000, o processo de curadoria da primeira compilação, sua relação com a cena e os próximos passos dessa nova fase. Confira.

Q+A: Maurizio Schmitz

Olá, Maurizio. Você acabou de lançar o release de estreia de sua gravadora, mauromusica, através de uma compilação bem especial. Como foi o processo de curadoria para a escolha dos 6 artistas presentes em EINER REIN. EINER RAUS.?

Olá, eu que agradeço o espaço! Na verdade, não houve exatamente um processo tradicional de curadoria. As faixas chegaram até mim em momentos diferentes, e eu simplesmente fui reunindo músicas das quais realmente gostava.

Em determinado momento, percebi que, de alguma forma, elas pertenciam ao mesmo conjunto e representavam exatamente a identidade musical que eu imaginava para a mauromusica.

Pelo o que você já falou nos bastidores, a mauromusica já nasceu com a ideia de ser uma gravadora lá no final dos anos 90, mas não foi possível por alguns fatores e acabou iniciando através dos eventos. Como eram essas festas exatamente? Encontros mais intimistas? Você lembra quantas edições aconteceram e quais nomes mais interessantes chegaram a tocar?

A ideia original era, de fato, criar uma gravadora, mas, naquela época, eu simplesmente não tinha os recursos financeiros nem os contatos necessários para fazer isso acontecer. Assim, a mauromusica começou como uma série de eventos, em Hamburgo, em 2002.

Talvez umas 50 pessoas tenham comparecido às primeiras edições. As festas eram intimistas, aconteciam dentro de um estúdio de gravação e eram totalmente guiadas pelo meu gosto pessoal por música. Depois, tivemos a oportunidade de levar o evento para clubs locais, crescendo aos poucos.

Quando transferimos o conceito para Bonn, minha cidade natal, em 2004, tudo começou com festas de aniversário, mas depois se transformou em uma noite mensal regular. O espaço não era exatamente um club, então trabalhei em parceria com o local para instalarmos um sistema de som adequado e projeções visuais em 360 graus nas paredes. A capacidade máxima era de 450 pessoas, mas levamos alguns anos para consolidar o projeto.

Ao longo dos anos, convidamos artistas que eu respeitava profundamente e construímos ao redor deles uma comunidade pequena, mas muito dedicada. Realizamos mais de 100 eventos, com convidados como Cassy, Tobi Neumann, Karotte, Guy Gerber, Ilario Alicante, Loco Dice, Monika Kruse e Sven Väth, para citar apenas alguns. Em 2014, o espaço fechou as portas. Ainda continuei com algumas edições em outros locais, mas já não parecia a mesma coisa. Por isso, decidimos colocar o projeto em pausa.

E o que te permitiu fazer o lançamento da mauromusica como gravadora agora em 2026?

De maneira bastante simples: surgiu a música certa e, finalmente, a possibilidade de fazer tudo exatamente como eu sempre havia imaginado.

Depois de mais de 30 anos trabalhando com música eletrônica, eu já tinha a experiência, a rede de contatos e também a independência financeira necessárias para criar uma gravadora sem concessões.

Quando “Based In Space”, de Raxon, e as outras faixas apareceram, senti que aquele era o impulso que faltava para finalmente transformar esse antigo sonho em realidade.

É perceptível por esse VA de estreia que a mauromusica visa valorizar principalmente a parte narrativa e a construção de atmosfera de cada faixa, correto? Pra você, essas características acabaram se perdendo um pouco ao longo do tempo? Vide o momento acelerado que vivemos hoje…

Sem dúvida. Tenho interesse por faixas que contam uma história e se desenvolvem ao longo do tempo. A música de que gosto não revela tudo nos primeiros 30 segundos.

Acredito, sim, que parte disso tenha se perdido no ambiente acelerado e guiado por algoritmos em que vivemos hoje, no qual a música muitas vezes precisa provocar uma reação imediata, com um ápice e um drop atrás do outro. É muito entediante. A mauromusica é o meu pequeno contraponto a essa lógica, oferecendo à música o tempo e o espaço que ela merece.

E já há planos para um segundo release? Você já está trabalhando nisso ou ainda é cedo pra confirmar algo?

Já estou ouvindo músicas novas e explorando algumas ideias, mas não quero lançar algo simplesmente porque uma gravadora precisa cumprir um calendário de lançamentos. O próximo disco virá quando eu encontrar uma música que realmente me empolgue e que faça sentido para a mauromusica.

Agora, falando um pouco além do release e da mauromusica em si, gostaríamos de saber um pouco mais sobre sua atuação na cena. Sabemos que você trabalha bastante nos bastidores e tem uma relação bem próxima com Sven Vath, não é? Conte-nos um pouco mais sobre seu papel na música hoje?

Trabalho de perto com Sven Väth e a Cocoon desde 2008, e isso se tornou uma parte muito importante da minha vida. Minha atuação combina gerenciamento artístico, booking, desenvolvimento de eventos e muitas das decisões estratégicas e criativas que acontecem nos bastidores.

Ao mesmo tempo, também sou DJ desde 1995. Portanto, vivencio a música eletrônica a partir de diferentes perspectivas. No fim das contas, todas essas funções estão conectadas pela mesma coisa: minha paixão pela música.

Para os próximos meses de 2026 ou até pensando num futuro mais longo, quais são seus planos, sejam eles pessoais ou profissionais? Que marca Maurizio quer deixar no mundo? Obrigado!

Eu simplesmente amo todos os aspectos da minha vida da maneira como ela é hoje. Meu trabalho com Sven e a Cocoon é extremamente gratificante, e me sinto muito privilegiado por fazer parte de algo tão especial: uma comunidade e um estilo de vida construídos em torno de valores com os quais me identifico profundamente.

Ao mesmo tempo, tocar como DJ, descobrir e selecionar boas músicas sempre serão partes centrais de quem eu sou e do que faço. Com a gravadora, agora tenho mais uma forma de expressar essa paixão e, espero, construir algo duradouro.

Se um dia eu me aposentar e olhar para trás, já poderei dizer que tenho orgulho da contribuição que consegui oferecer a esta cena. E, pelo menos por um futuro bastante previsível, não tenho absolutamente nenhuma intenção de mudar nada disso.

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