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Interviews

Entrevistamos Joyce Muniz, artista brasileira que faz seu quarto lançamento pela Permanent Vacation

‘Nostalgia 92’ conecta memórias da infância no Brasil, sonoridade dos anos 90 e uma fase mais leve da artista, hoje baseada em Lisboa

  • Marllon Gauche
  • 22 July 2026

Nascida no Brasil, criada na Áustria, com passagem de dez anos por Berlim e atualmente baseada em Lisboa, Joyce Muniz construiu uma trajetória atravessada por diferentes culturas, cenas e referências. Seu som transita entre house, electro e indie dance, com interesse por sintetizadores analógicos, atmosferas emocionais e composições que preservam sua identidade.

Em seu mais recente trabalho de estúdio, Joyce retorna à Permanent Vacation com ‘Nostalgia 92’, novo release que chega pouco mais de um ano após ‘No Haters’, colaboração com Renato Cohen lançada pelo mesmo selo. A faixa reforça sua relação com a gravadora alemã em um momento simbólico, já que a Permanent Vacation celebra duas décadas de atividade e segue como uma das labels mais respeitadas da house music contemporânea.

Criada a partir de uma memória da infância no Brasil e inspirada pela estética do house dos anos 90, ‘Nostalgia 92’ nasceu durante o Réveillon de 2026, no festival da Cardume. O lançamento apresenta uma faixa instrumental, praticamente toda analógica, com bassline de caráter dub, elementos de indie dance e electro, além de um remix assinado pelo duo lisboeta OITO//OITO.

No dia 25 de julho, Joyce celebra o lançamento no Lux, em Lisboa, ao lado do próprio OITO//OITO, em uma apresentação que também marca seu debut no clube. Aproveitamos o momento e conversamos com a brasileira sobre o retorno à Permanent Vacation, o processo criativo do release, sua nova fase em Lisboa e os próximos passos da carreira.

Q+A: Joyce Muniz

Você voltou à Permanent Vacation com ‘Nostalgia 92’, pouco mais de um ano depois de sua última aparição por lá. Como você enxerga essa relação com a gravadora e o que torna esse novo lançamento especial pra você?

A Permanent Vacation é um selo com o qual sempre me identifiquei muito. Sempre acompanhei os lançamentos e recebo os promos deles há anos. Admiro muito a curadoria do Benjamin Fröhlich e do Tom Bioly, porque eles estão sempre trazendo novidades, mas sem perder a identidade do selo. Existe uma abertura muito grande para diferentes sonoridades, e isso sempre me chamou a atenção.

Quando terminei Nostalgia 92, a Permanent Vacation foi a primeira gravadora para a qual enviei a faixa, porque senti que ela fazia sentido dentro desse universo. A música tem uma atmosfera mais deep e delicada, mas ao mesmo tempo traz elementos contemporâneos e muito da minha identidade.

Fiquei muito feliz quando eles decidiram lançar a faixa. Poder voltar a colaborar com um dos meus selos favoritos é muito especial e reforça uma parceria na qual acredito e com a qual me identifico artisticamente.

Nos bastidores você contou que a ideia de ‘Nostalgia 92’ nasceu durante o Réveillon de 2026, enquanto tocava no festival da label brasileira Cardume, mas o título também carrega uma memória da sua infância no Brasil. Como essas duas experiências se encontraram na faixa?

Sim, a ideia de Nostalgia 92 nasceu durante o Réveillon da Cardume, onde tive a oportunidade de encerrar uma das noites em um lugar incrível, no meio das dunas. A energia daquele momento foi muito inspiradora. O set que preparei tinha uma sonoridade mais voltada para o house, com basslines marcantes, synths melódicos e uma atmosfera leve, aberta e envolvente.

Enquanto tocava, pensei que queria criar uma faixa que traduzisse exatamente aquela sensação. Uma música que carregasse aquela energia, mas que também fosse fiel à minha identidade. Foi ali que surgiu a ideia inicial. Comecei a desenvolvê-la no computador e depois finalizei tudo no meu estúdio.

O nome Nostalgia 92 também tem uma origem muito pessoal. Em 1992, quando eu ainda era criança no Brasil, um vizinho me deu uma fita cassete com músicas que eu só anos depois descobri que eram house music. Na época eu não fazia ideia do que estava ouvindo, mas aquela memória ficou guardada. Quando terminei essa faixa, percebi que ela me reconectava exatamente com esse momento da infância, e por isso o nome surgiu de forma muito natural.

O EP resgata elementos da house music dos anos 90, mas também traz indie dance, electro, bassline com característica dub e um toque de dark disco. Como você chegou a essa sonoridade no estúdio? Algum equipamento, synth ou drum machine foi especialmente importante para construir essa atmosfera?

Como comecei essa música no computador, acabei usando alguns sintetizadores em formato de plugin. O bassline, por exemplo, foi feito com o Serum, um plugin muito utilizado por produtores de drum and bass e dub, justamente por permitir criar timbres com bastante personalidade. Já para os synths melódicos, usei o Nexus.

A construção da faixa aconteceu de uma maneira muito natural. Esse bassline mais dub surgiu quase espontaneamente e trouxe uma energia que eu adoro, mas que fazia bastante tempo que eu não explorava nas minhas produções.

Desde o início, a minha intenção era criar uma música que permitisse às pessoas mergulharem na atmosfera da faixa, sem a presença de uma voz conduzindo a narrativa. Eu adoro trabalhar com vocais, mas eles inevitavelmente carregam uma mensagem, mesmo quando são apenas uma frase ou uma palavra. Desta vez, quis que fossem apenas os sons, as texturas e os instrumentos a guiar a experiência, deixando espaço para que cada pessoa interpretasse a música da sua própria maneira e simplesmente se deixasse levar.

O remix ficou nas mãos do OITO//OITO, duo de Lisboa formado por amigos seus de longa data. O que você sentiu que a versão deles trouxe de fresh para o release?

Como produtora, posso dizer que remixar uma música instrumental costuma ser um desafio maior. Quando existe um vocal, ele acaba servindo como um ponto de referência e ajuda muito a construir uma nova versão. Sem essa referência, o trabalho exige ainda mais criatividade.

Foi exatamente isso que eu gostei no remix do OITO//OITO. Eles conseguiram criar uma narrativa própria apenas com os elementos instrumentais da faixa, sem perder a essência da original. Ao mesmo tempo, trouxeram uma identidade muito forte, incorporando influências de uma sonoridade que também marcou os anos 90, com uma pegada mais broken beat.

Acho que o resultado ficou muito especial, porque amplia o universo de Nostalgia 92 e reforça essa ideia de nostalgia em diferentes sentidos, sem deixar de soar atual.

Você vive hoje em Lisboa e comentou que mudanças de cidade também influenciam naturalmente sua música. Como essa nova fase em Portugal tem afetado sua rotina criativa, suas referências e sua relação com a pista?

Estou curtindo muito conhecer a cena e os clubes de Portugal. Em julho e agosto vou fazer uma pequena turnê, passando pela Lux, em Lisboa, pela Switch, no Porto, e pela Tree House, no Funchal. Tem sido uma oportunidade incrível de conhecer novos espaços, ouvir outros DJs e me conectar com uma cena que tem uma energia muito própria.

Acho que viver em um lugar tão conectado com o mar acaba influenciando naturalmente o meu processo criativo. Nos últimos meses tenho produzido músicas que carregam uma atmosfera diferente daquela que eu provavelmente faria em Berlim. Não é uma mudança radical, mas uma evolução natural, influenciada pelo momento que estou vivendo.

Ao mesmo tempo, uma coisa continua sendo essencial para mim: independentemente da direção que a minha música tome, nunca quero perder a minha identidade. Gosto de experimentar e deixar que o ambiente onde vivo influencie meu trabalho, mas sempre mantendo uma assinatura sonora que faça sentido para a minha trajetória.

Conte um pouco mais também sobre a conferência de música eletrônica que você desenvolveu, a Lisbon Dance Summit. Como foi a primeira edição e o quais as projeções para a segunda em 2027?

O LDS - Lisbon Dance Summit representa um lado muito importante do meu trabalho. É um projeto que reúne tudo o que aprendi ao longo dos últimos anos como produtora e artista, mas também a minha vontade de criar espaços de troca e fortalecer a comunidade da música eletrônica.

Ter a oportunidade de fazer a curadoria do Studio Hub, voltado para produção musical e tecnologia, também tem sido um grande aprendizado. Além de compartilhar conhecimento, aprendo muito com cada artista convidado e com cada participante. O projeto também foi fundamental para me conectar com a cena de Lisboa, e sou muito grata por isso.

Fico muito feliz em dizer que teremos uma segunda edição em 2027. Já estamos preparando algumas novidades e novas parcerias, que ainda não posso revelar, mas posso dizer que a proposta continua a mesma: reunir artistas reconhecidos e talentos emergentes em um ambiente de troca genuína.

Acredito que cada produtor tem um processo criativo único e que sempre há algo para aprender, independentemente da experiência de cada um. Por isso, quero continuar promovendo essa diversidade de perspectivas.

Outro ponto que considero essencial é a diversidade de pessoas. Queremos seguir construindo um line-up que represente mulheres, pessoas trans, pessoas negras e outros grupos historicamente sub-representados, além de reunir diferentes gerações e trajetórias. Para mim, essa diversidade é um dos pilares do Lisbon Dance Summit e continuará sendo uma prioridade nas próximas edições.

Olhando para sua carreira de forma mais ampla, você tem falado sobre autenticidade, consistência, independência artística e construção de uma história de longo prazo. Como esses pontos orientam seus próximos projetos e o que você espera desenvolver no restante do ano? Obrigado!

Nos próximos meses tenho algumas novidades que me deixam muito animada. Em agosto, faço uma pequena turnê passando pelo Canadá, México e Estados Unidos, uma ótima oportunidade para apresentar meu trabalho a novos públicos e fortalecer minha presença internacional.

No estúdio, recebi o convite para remixar uma faixa do novo álbum de um grande amigo, o produtor brasileiro Leo Janeiro. Fiquei muito feliz com esse convite, porque a música dele traz uma brasilidade muito especial, uma sonoridade com a qual eu não trabalhava há bastante tempo. Tem sido um processo muito inspirador.

Também tenho um lançamento previsto para o final do ano ao lado de uma grande amiga, a DJ, produtora e cantora VNSSA. A faixa será lançada pela Pets Recordings, um selo que admiro muito e pelo qual fazia bastante tempo que eu não lançava. Estou muito feliz em voltar a fazer parte desse catálogo.

E, se tudo correr como planejado, também pretendo voltar ao Brasil no final de dezembro, o que torna este segundo semestre ainda mais especial.

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Imagens: Divulgação

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