As faixas conectam-se e contam uma história: Victor Ruiz comenta primeiro álbum em 20 anos de carreira
DJ e produtor brasileiro fala sobre o processo terapêutico que deu origem ao seu primeiro álbum de estúdio
Depois de duas décadas construindo uma das carreiras mais respeitadas da cena eletrônica brasileira, Victor Ruiz apresenta nesta sexta-feira, 10 de julho, seu trabalho mais pessoal até hoje. Para DJs, o álbum está disponível no Beatport.
Enraizado no techno, mas expandindo sua sonoridade de forma fluida por todo o espectro da música eletrônica, Victor Ruiz é um artista que rompe fronteiras. Nascido no Brasil e atualmente baseado em Portugal, mantém presença constante na cena global desde 2012 e é amplamente reconhecido por suas performances hipnotizantes como DJ.
"VICTOR" marca o primeiro álbum de estúdio do DJ e produtor e rompe com a sonoridade que o consagrou internacionalmente no techno para revelar um artista disposto a explorar novas influências, emoções e formas de composição. A obra nasceu de uma profunda transformação pessoal. Em um momento de incertezas após a pandemia, Victor viu sua carreira atravessar uma crise provocada pelas mudanças na cena eletrônica, mas encontrou justamente no estúdio o caminho para ressignificar esse período.
O resultado é uma obra concebida como uma experiência de audição completa, na qual cada faixa conduz à seguinte e acompanha uma narrativa sobre vulnerabilidade, superação e recomeço. Além da estreia nas plataformas digitais, o álbum também ganha uma edição especial em vinil e uma coleção de camisetas inspiradas na identidade visual do projeto.
Para saber mais sobre este e outros assuntos, Nazen Carneiro bateu um papo com Victor Ruiz que você confere com exclusividade na Mixmag Brasil. Aqui o artista fala sobre o processo criativo de "VICTOR", explica o significado do álbum, relembra a colaboração com Perry Farrell – vocalista do Jane's Addiction e criador do Lollapalooza –, comenta suas principais referências musicais e revela por que considera este o trabalho mais importante de sua trajetória. Para acompanhar a leitura, ouça o álbum abaixo.
Q+A: VICTOR RUIZ
Seja bem vindo a Mixmag Brasil, Victor. Para começar, comente por gentileza, como surgiu o processo de criação do álbum.
Saindo da pandemia, eu estava super animado porque as coisas estavam voltando, mas ao mesmo tempo rolou um choque de realidade muito grande. O techno que eu fazia perdeu popularidade pro hard techno e outros gêneros. Acabei ouvindo dos meus agentes e manager que minha música não era mais tão relevante, ninguém queria me bookar por causa disso.
Fiquei triste e com raiva, me sentindo muito mal, culpando todo mundo. Eu estava me sentindo uma vítima de toda a cena, do mundo todo, super desesperançoso e pensando em desistir da minha carreira. Ao mesmo tempo, eu não conseguia deixar de ir pro estúdio, porque eu sempre fui muito criativo.
Aí pensei em criar o que me desse na telha, porque antes de ser DJ e produtor, eu sou músico – toco desde os meus nove anos, baixo, guitarra, bateria, piano… E então comecei a fazer esses sons. Depois de umas cinco músicas, minha esposa falou: “Victor, acho que você tá fazendo um álbum sem saber”.
Olha! Que interessante! E em que momento você percebeu que precisava mudar essa forma de enxergar o que estava acontecendo?
Foi um processo que demorou uns dois anos. Nesse tempo todo, muita coisa mudou. Eu comecei a encarar a vida de uma maneira diferente, de me ligar que a culpa pelo que estava acontecendo com minha carreira não era dos outros, era minha. Decidi parar de ser vítima e tomar conta da minha vida. Produzir essas músicas me ajudou com isso. Foi muito terapêutico e libertador.
Por isso o álbum se chama “VICTOR”. É o meu nome, sim, mas também vem do inglês “victor”, que significa vitorioso. Eu li uma vez num livro uma frase que eu amo: “In life, you either are a victim or a victor”. Na vida, ou você é uma vítima ou um vencedor. Eu decidi ser vitorioso. E esse álbum me ajudou com isso.
Que bom. Outra coisa que nota-se é que o disco é bem diferente do Victor Ruiz conhecido pelo techno. Conte sobre isso por gentileza.
É praticamente um lado B meu. Tem só uma faixa de techno. O resto passa por várias influências e foi feito para escutar do começo ao fim. Uma faixa conecta-se com a outra e conta uma história. Eu sei que vai surpreender, não sei como as pessoas que tão acostumadas a ouvir meu som vão reagir, porque é algo que nunca fiz antes.
E quais foram essas influências?
Ah, são várias. Por incrível que pareça, eu não escuto muita música eletrônica. De eletrônica tem Depeche Mode, Massive Attack, Eric Prydz, Bicep, Moby… Fora isso, The Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd, Alice in Chains… Tem todas essas paletas de cores e sabores e sonoridades. Pelo menos aqui dentro de mim.
Chama a atenção a faixa “Sundance”, que foi feita em parceria com Perry Farrell. Como rolou essa parceria?
Foi super especial, porque eu venho do rock. Durante a pandemia, um cara que trabalhava com ele me falou que ele estava fazendo colaborações com outros artistas, e me perguntou se eu não tinha algo pra enviar. Na época, eu estava dando aulas online de mentoria, e numa dessas sessões, criei uma melodia na minha cabeça. Terminando a aula, abri o Logic, que é onde eu produzo, e criei essa melodia.
Depois, comecei a procurar ideias em outros arquivos muito antigos meus. Achei um que era por volta de 2010, uma melodia que acabou sendo o hook principal da “Sundance”. Botei em cima da outra que eu havia recém-criado e mandei pro cara, mas nem imaginei que fosse dar em algo. Uns dois meses depois, ele retornou com os vocais do Perry.
Você diria que “VICTOR” é um álbum atemporal? E é mais para que tipo de audição?
Super atemporal. Não tem nada de trend, de hype, zero viés comercial. É um álbum para escutar. Dá para ouvir no carro, trabalhando, em casa com os amigos. É muito mais uma listening experience do que um álbum pensado para tocar nas pistas, embora algumas faixas funcionem muito bem nesse sentido.
E comente, por gentileza, como foi o processo de produção?
Usei praticamente todos os meus skills como produtor. Gravei baixo em algumas músicas, usei synths, hardware, sampling. Meu irmão toca guitarra em “Sundance”. Tem vocais meus processados, vocoder, vozes de outras pessoas. Quis experimentar de tudo, do mais orgânico ao mais digital e analógico.
Para fechar, o que você quer transmitir com o álbum?
Quero trazer um pouco de consciência e de empoderamento para as pessoas. Elas podem tomar as rédeas da própria vida e não ficar se sentindo vítimas das circunstâncias.
A vida é difícil para todo mundo, mas o que a gente faz dela, dessas situações adversas, é o que importa. Não são as cartas que dão pra você, mas como você joga o jogo. Aprendi muito na minha vida, e esse álbum é o processo disso.
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Imagens: Divulgação

