Sul Global impulsiona a música eletrônica e Brasil ganha protagonismo: análise do IMS Report por Nazen Carneiro
Música eletrônica avança no Sul Global e Brasil se consolida como mercado estratégico
O IMS Report 2026 aponta a mudança do eixo da indústria para novos mercados e destaca o papel. estratégico do Brasil na expansão global
O centro de gravidade da música eletrônica está mudando. Os dados apresentados no International Music Summit 2026 indicam que o crescimento da indústria deixou de estar concentrado na Europa e na América do Norte e passa a se acelerar em mercados emergentes, onde o Brasil aparece como um dos territórios mais relevantes em escala, consumo e projeção cultural.
O jornalista Nazen Carneiro foi convidado pelo International Music Summit a participar como palestrante no painel “Intersections: Voices Shaping Electronic Music Culture”. Além disso, acompanhou diversos painéis ao longo do evento, incluindo a apresentação anual do IMS Report.
O IMS Report é apresentado todos os anos na abertura do evento em Ibiza e reúne dados analíticos relevantes sobre o comportamento da indústria da música eletrônica nos últimos anos.
Neste artigo, Nazen Carneiro apresenta uma análise do relatório em conteúdo exclusivo para os leitores da Mixmag Brasil.
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O relatório confirma um ano de crescimento consistente para a indústria musical global, com expansão superior à do período anterior. Pela primeira vez, o streaming cresceu em ritmo inferior ao mercado como um todo, o que indica uma diversificação efetiva das fontes de receita.
Áreas como direitos ampliados, música ao vivo, patrocínios e formatos físicos ganharam protagonismo. Esse movimento aponta para uma mudança estrutural: a música deixa de ser apenas consumo e passa a operar como experiência, comunidade e ativo cultural.
O crescimento de usuários e assinantes está cada vez mais concentrado fora dos mercados tradicionais. Países como Brasil, México, Índia e Indonésia lideram essa expansão, adicionando centenas de milhões de novos consumidores ao ecossistema digital. Nesse cenário, o Brasil se destaca por combinar escala populacional, maturidade digital e uma cena eletrônica já consolidada.
Diferentemente de outros mercados emergentes, o país não cresce apenas em consumo, mas também em produção e exportação cultural. O Brasil passa a atuar como um hub híbrido, absorvendo tendências globais ao mesmo tempo em que desenvolve uma identidade própria que começa a circular internacionalmente. Isso reforça a ideia de que o avanço do Sul Global não é apenas quantitativo, mas também criativo.
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As plataformas digitais continuam ampliando sua participação na receita total da indústria. Mudanças nos modelos de monetização e ferramentas algorítmicas estão permitindo que os DSPs capturem uma parcela maior do valor gerado.
Ao mesmo tempo, o mercado fonográfico passa por uma reorganização, com o fortalecimento de selos de médio porte que operam com estruturas semelhantes às majors em termos de dados, marketing e investimento. Esse cenário intensifica a competição e desloca o foco para eficiência operacional dentro das plataformas.
O setor de eventos apresenta uma dinâmica dual: aumento de receita acompanhado de redução na frequência de participação. O público está gastando mais por experiência, priorizando eventos de maior valor em vez de saídas recorrentes. Em mercados como o Brasil, onde a cultura de eventos é central, esse movimento exige um equilíbrio entre acessibilidade e rentabilidade. A pressão econômica sobre o público jovem surge como um fator crítico para a sustentabilidade do setor no médio prazo.
O ambiente digital segue em processo de fragmentação, com crescimento contínuo no número de artistas e conteúdos disponíveis. Ao mesmo tempo, o topo do mercado se torna mais concentrado, com artistas apoiados por estruturas capazes de operar dados e investimento em larga escala. Isso cria um sistema dual: maior acesso para entrada na indústria, mas com barreiras mais complexas para atingir escala global.
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Os dados reforçam que o valor do fandom na música eletrônica está diretamente ligado à identidade. Os fãs demonstram maior conexão com comunidades, cenas e experiências coletivas. No Brasil, onde a dimensão social da música é historicamente forte, esse fator se torna uma vantagem estrutural. A capacidade de formar e sustentar comunidades segue como um dos principais ativos da música eletrônica.
Mais da metade dos consumidores já participa de alguma forma de atividade criativa, impulsionada por ferramentas digitais e inteligência artificial generativa. Esse perfil apresenta níveis mais altos de engajamento: consome mais música, frequenta mais eventos e gasta mais com produtos relacionados. A democratização da criação redefine o ecossistema e abre novas oportunidades, especialmente em mercados como o brasileiro, onde o acesso à tecnologia continua em expansão.
O relatório aponta uma relação direta entre o contexto global e a evolução do som. O crescimento de estilos mais rápidos e intensos reflete uma resposta cultural a um cenário de tensões econômicas e sociais. Ao mesmo tempo, o avanço de gêneros como o afro house evidencia a influência crescente de regiões fora do eixo tradicional. O Brasil se posiciona nesse contexto como um espaço de convergência, onde referências globais e locais se combinam na construção de novas linguagens.
A entrada de capital na indústria segue em expansão, com crescimento nas aquisições de catálogos musicais. A música eletrônica já representa cerca de 20% dessas operações, com ativos mais recentes e maior relevância cultural contemporânea. Esse perfil favorece mercados dinâmicos como o Brasil, onde o catálogo atual possui maior potencial de revalorização por meio de remixes, sincronizações e circulação digital.
O IMS 2026 consolida uma mudança estrutural na música eletrônica global. O crescimento deixa de ser centrado em mercados tradicionais e passa a ser impulsionado por territórios como o Brasil, que combinam escala, cultura e capacidade de inovação. Nesse novo cenário, a indústria se torna mais distribuída, mais competitiva e mais conectada, com o Sul Global assumindo um papel ativo na definição de seus próximos movimentos.
O painel “At the Intersections: Voices Shaping Electronic Music Culture” - na foto acima - realizado no âmbito do International Music Summit Ibiza, reúniu Ashraf Ejjbair, Avantika, CAMZ, Natalie Wade, Nazen Carneiro, Sunita Dhaliwal e Whitney Wei para uma discussão centrada nas identidades interseccionais que moldam a cultura da música eletrónica contemporânea.
Partindo do reconhecimento de que o género tem as suas raízes em comunidades negras, queer e marginalizadas, a conversa propõe analisar como fatores como raça, género, sexualidade, classe e neurodivergência continuam a influenciar trajetórias, narrativas e estruturas de poder na indústria, ao mesmo tempo que impulsionam inovação criativa e novas formas de expressão nos circuitos globais.
Para acompanhar mais sobre a indústria da música eletrônica siga o Instagram da @mixmagbrazil e do jornalista @nazen.carneiro
Imagens: Marcos Collins / Juan Sabatino / Leafhopper Project /

