Cover Story
Jessica Brankka fala sobre identidade, groove e o caminho até o Coachella moldando sua ascensão global
Artista brasileira compartilha seu processo criativo, conexão com o público e a evolução do seu som
Jessica Brankka se move com naturalidade entre estética, som e presença, construindo uma identidade que conecta pista, imagem e narrativa com precisão. Artista expressiva e autêntica, ela traduz sua essência tanto nos sets quanto nas produções, transitando por diferentes estilos com fluidez e mantendo uma assinatura dinâmica e envolvente. Esse diálogo entre música e lifestyle também se estende à moda, um elemento central na sua comunicação, que amplia sua conexão com o público e a posiciona além da cabine.
Essa visão multidisciplinar ajudou a levar seu nome a palcos e contextos globais, de clubs icônicos a grandes festivais, passando por experiências que vão de Tomorrowland e Burning Man, Lollapalooza, Pacha Ibiza, Warung a Greenvalley e Hï Ibiza. Ao mesmo tempo, sua trajetória inclui momentos que reforçam esse encontro entre música e cultura, como apresentações durante a semana de moda de Milão e colaborações com marcas internacionais.
No centro de tudo está uma leitura de pista refinada e uma busca constante por conexão real. Seus sets exploram atmosferas que variam entre o íntimo e o expansivo, sempre guiados por grooves marcantes, provocativos e carregados de personalidade. Essa mesma abordagem aparece no estúdio, onde suas ideias surgem de forma orgânica, seja por meio de melodias, ritmos ou vocais, sempre com a intenção de contar histórias e criar significado.
Com um caminho que evolui de forma consistente, sem depender de momentos isolados, Jessica constrói uma carreira baseada em identidade, presença e visão artística. Agora, em um momento que inclui marcos como sua estreia no Coachella, ela amplia seu alcance internacional enquanto aprofunda sua proposta criativa.
A seguir, ela compartilha os processos, referências e perspectivas que moldam esse capítulo.
Interview: Jessica Brankka
Você toca no Coachella 2026. O que esse momento representa para você pessoalmente e dentro da sua trajetória até agora? Como surgiu essa oportunidade?
O Coachella é um dos festivais mais prestigiados do mundo e, sem dúvidas, é a realização do sonho de qualquer artista fazer parte. Simboliza, além do reconhecimento internacional e validação artística, uma grande oportunidade de expandir a carreira em todos os aspectos.
Essa oportunidade nasceu de uma tour na Argentina, onde a equipe da Framework assistiu a um dos meus sets e ali naquele momento foi onde nos conectamos. Pouco tempo depois, eles entraram em contato e me convidaram para tocar em Los Angeles, e logo em seguida surgiu o Coachella.
Foi tudo muito natural e uma das notícias mais incríveis que eu recebi, fiquei sem acreditar por um momento.
Como descreveria o som de Jessica Brankka neste momento e como ele evoluiu ao longo dos últimos anos?
Eu tento sempre trazer bastante personalidade e imponência, com grooves bem marcados, sexy e provocativos e que trazem referências do universo fashion. Gosto de despertar esse lado nas pessoas, de provocá-las no bom sentido, trazendo-as para um lugar de presença total e real conexão consigo mesmas.
Acredito que a maior evolução é que me mantive alinhada com o que eu sinto verdadeiramente na hora de tocar e com o que eu quero transmitir para o público, sem simplesmente seguir uma receita que está dando certo no momento.
Quando você está no estúdio, o que geralmente vem primeiro para você: ritmo, melodia ou atmosfera?
Não tenho regras. Quase sempre as ideias vão fluindo de acordo com o que estou sentindo ali no momento. Às vezes parte de um feeling mais emocional, então começo por uma melodia; outras vezes pelo ritmo, quando já defino o groove da música de cara; ou tudo nasce a partir de um sample ou vocal interessante.
O mais importante para mim é fazer música com significado. Gosto de contar histórias ou momentos que fazem parte da minha vida, que tenham um sentido claro para mim.
Você aborda sets de festival de forma diferente dos sets em clubes ou tenta manter a mesma energia independentemente do palco?
Com certeza! Eu amo ambas as energias justamente porque elas se diferem e me desafiam, como artista, a criar atmosferas diferentes que funcionem para cada público, sem perder minha identidade.
Amo poder criar uma atmosfera mais intimista, com o público mais próximo de mim e mais conectado com a música, e também essa atmosfera com um público maior e mais diverso, com mais distrações visuais, onde eu preciso criar momentos que cativem a atenção rapidamente e o tempo todo. A energia tem que estar sempre lá em cima.
Como você lê a energia de um público quando está tocando em um lugar novo?
Eu gosto de chegar um pouco antes do meu set para já ir sentindo como está a vibe do lugar e das pessoas, qual é a faixa etária predominante. A linguagem corporal é muito importante, tento ficar sempre atenta às reações do público e entender com que tipo de música eles mais se conectam. Isso ajuda muito a criar um ambiente positivo e receptivo.
Artistas brasileiros estão vivendo um grande momento global na música eletrônica. Como crescer no Brasil moldou a forma como você aborda a música e a pista de dança?
Sem dúvidas, esse é um dos melhores momentos para a cena eletrônica brasileira, e eu fico muito feliz por todo esse reconhecimento.
Acho que toda a nossa diversidade rítmica, essa energia vibrante e calorosa das festas brasileiras e toda essa bagagem cultural refletem diretamente em quem somos como artistas.
O que trazemos para o palco vem muito da realidade que vivemos. Mesmo em meio às dificuldades, através da música tentamos sempre trazer aquela alegria que só o brasileiro tem.
O que existe na cena de música eletrônica brasileira que o resto do mundo ainda não entende completamente?
Acho que é o “molho”, né? Eles nunca vão entender, haha (brincadeiras à parte). Eu diria que é essa mistura rítmica autêntica, que vem da nossa diversidade cultural, e a nossa capacidade de inovar dentro do gênero.
Seu estilo visual e sua moda parecem uma extensão da sua marca. Quão importante é a identidade visual para você como artista?
A forma como eu me visto é parte da minha personalidade, do meu humor, de como eu quero me expressar em determinados momentos. Acho isso fundamental na construção e comunicação da minha marca pessoal. Isso fortalece muito a conexão com a audiência e traz reconhecimento.
Houve algum momento no último ano em que você sentiu que as coisas realmente mudaram para a sua carreira?
Eu sinto que as coisas vêm mudando gradativamente. Não tive um hit ou algum momento viral na minha carreira, mas sei que as coisas estão acontecendo como têm que ser. Cada momento faz parte de uma jornada longa, que exige muita paciência e constância.
Qual foi um show que te surpreendeu completamente? Como foi?
O Tomorrowland Bélgica foi muito especial. Além de estar realizando um sonho, ver o público - principalmente brasileiro - indo me dar suporte debaixo daquele sol de 50 graus foi realmente único e emocionante. Eu não esperava muito e me surpreendi.
Fazer turnê pode ser intenso. Quais hábitos ou rotinas ajudam você a se manter equilibrada viajando tanto?
Normalmente, eu já tenho uma vida bem equilibrada: pratico atividades físicas diariamente, amo esportes, me alimento bem e tento dormir bem sempre que posso. Medito, estou em constante contato com a natureza e busco ter um tempo de qualidade com as pessoas que amo.
Quando estou viajando, adapto essa rotina. Claro que não consigo fazer tudo, mas tento manter pelo menos o mínimo.
Qual foi o primeiro disco que mudou sua vida?
Discovery, do Daft Punk. Eu senti uma emoção diferente, algo atemporal - me marcou e é assim até hoje.
Um DJ com quem você adoraria fazer um B2B?
Solomun.
Como seria um dia perfeito de folga para você?
Acho que o “dia perfeito” fora da estrada tem a ver com voltar para mim mesma, algo que equilibra silêncio, prazer e inspiração, sem pressão nenhuma.
Acordar sem despertador, ao som da natureza, com luz natural entrando. Nada de celular por um tempo. Um café da manhã bonito, aquele silêncio, um momento só meu para respirar, sentir e pensar na vida.
Alguma atividade física para sentir o corpo de verdade, boas conversas e boas risadas com pessoas que amo, ou até mesmo sozinha, comendo uma comidinha caseira.
Assistir ao pôr do sol e deitar para dormir com aquela sensação de estar preenchida. O mais importante em um dia assim é sair do modo performance e entrar no modo presença.
Olhando para frente, como você imagina o próximo capítulo do projeto Jessica Brankka?
O próximo capítulo é sempre pensar na próxima música e tentar ser cada vez mais autoral, fazer lançamentos mais consistentes e trabalhar mais na minha marca e estética, para que o projeto possa expandir e ser parte de uma experiência que não seja apenas musical.
Creditos:
Stylist: Lu machado @luexquisitah
Fotógrafo: Leandro Franco @leandrofranco_
Maquiagem: Eduardo de castro @edu333
Assistente de maquiagem: Alan Gabriel @alangabriell_

