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Underdivision e a nova pressão da pista: conversamos com Matheus, o nome por trás do label que está ajudando a moldar o hard techno no brasil

De promotora a agente cultural, a Underdivision se consolida como uma das forças por trás da ascensão do high BPM no país - entre hype, identidade e construção de cena

  • Victor Flosi
  • 7 April 2026

O hard techno deixou de ser apenas uma tendência importada para se tornar uma linguagem cada vez mais presente nas pistas brasileiras. No centro desse movimento está a Underdivision, coletivo que vem expandindo sua atuação muito além da promoção de eventos, assumindo um papel ativo na construção estética, sonora e cultural dessa nova fase da cena eletrônica no país.

À frente do projeto, Matheus viu essa virada acontecer de dentro. O momento em que tudo deixou de ser apenas sobre “fazer festas” e passou a significar influência real na cena foi claro: quando outras iniciativas começaram a ecoar ideias, propostas e direções semelhantes às que a Underdivision já vinha colocando em prática.

“Pra mim virou a chave quando comecei a ver coletivos, artistas e até outras festas seguindo propostas parecidas com o que a gente fazia. Ali ficou claro que não era mais só resposta, a gente estava ajudando a moldar a cena.”

Essa construção acontece em um contexto onde o hard techno vive um pico de visibilidade global, acompanhado, inevitavelmente, por críticas sobre superficialidade e excesso de estética. Para Matheus, no entanto, esse ciclo não é novidade. O hype sempre existiu, apenas muda de endereço ao longo do tempo.

“O hype sempre vai existir. Hoje está no hard, amanhã vai estar em outra vertente. O importante é manter a energia de pista e os valores que a gente acredita como pilares pra construir uma cena consistente.”

Essa visão revela um ponto central da Underdivision: a preocupação não é apenas com intensidade sonora, mas com coerência cultural. Em vez de surfar apenas na tendência, o coletivo busca estabelecer fundamentos, algo que se reflete tanto na curadoria musical quanto na construção de comunidade.

Historicamente, o público brasileiro sempre teve uma conexão mais forte com vertentes como house e tech house. Mas algo mudou, e de forma significativa, no comportamento recente das pistas. Segundo Matheus, o período pós-pandemia foi determinante para essa transformação.

“O público ainda se identifica muito com essas vertentes mais grooveadas, muito por conta da nossa cultura. Mas depois da pandemia, a busca por ritmos mais intensos cresceu muito. E a nova geração já chega mais aberta a sons rápidos, mais agressivos.”

Esse shift geracional ajuda a explicar por que o high BPM deixou de ser nicho para ocupar espaços maiores e mais diversos dentro do circuito nacional. Ainda assim, o crescimento acelerado exige identidade, e esse é um dos pontos onde a Underdivision mais se destaca.

Com uma assinatura estética clara, tanto no som quanto no visual, o coletivo construiu uma marca reconhecível dentro de um cenário cada vez mais saturado. Curiosamente, essa identidade não nasceu de um plano estratégico rígido, pelo menos não no início.

“Começou de forma totalmente orgânica, a partir dos sons, referências e experiências que a gente curtia. Com o tempo, isso foi ganhando forma e virou também uma estratégia, incorporando o que a nossa comunidade valoriza e se identifica.”

Essa combinação entre intuição e estratégia talvez seja um dos principais diferenciais da Underdivision: crescer sem perder coerência. E, ao olhar para o futuro, essa coerência se estende também à forma como o Brasil se posiciona dentro do movimento global.

Se por um lado ainda existe um processo de absorção das tendências internacionais do hard techno, por outro, a exportação de artistas e ideias brasileiras não é novidade, e tende a se intensificar.

“O público pode até estar absorvendo esse ‘novo’ hard techno, mas o Brasil já exporta esse movimento há muito tempo, com vários nomes rodando o mundo.”

Nesse cenário, a Underdivision se posiciona não apenas como reflexo de uma tendência, mas como parte ativa de uma narrativa maior: a de um país que não só consome cultura eletrônica, mas também cria, transforma e devolve ao mundo sua própria leitura de pista.

Entre BPMs elevados, estética crua e uma comunidade cada vez mais engajada, o que está em jogo não é apenas o crescimento de um gênero, mas a consolidação de uma nova fase da cena eletrônica brasileira.

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Imagens: Divulgação

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