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Guys From Desert mergulha em narrativa, tempo e emoção em 'Currents of a Leaf'

Entre introspecção e pista, o duo apresenta seu trabalho mais conceitual até agora, transformando metáfora em linguagem sonora

  • Victor Flosi
  • 22 January 2026

Em "Currents of a Leaf", o Guys From Desert dá um passo adiante em sua trajetória artística ao apresentar um álbum que foge da lógica imediatista da pista para se afirmar como obra de percurso, atmosfera e intenção.

Lançado pela própria gravadora dos artistas, Ethernal Sands, o disco se constrói a partir de uma narrativa delicada e simbólica, guiada pela metáfora da correnteza e da folha levada pelo vento - imagens que atravessam o álbum não apenas como conceito, mas como método de criação.

Mais do que uma coleção de faixas, Currents of a Leaf funciona como um fluxo contínuo, onde emoção, silêncio, tensão e energia coexistem com equilíbrio. Ao longo do projeto, o duo explora contrastes entre introspecção e impacto, escuta e movimento, refletindo um momento de maturidade artística e clareza estética.

Nesta entrevista à Mixmag Brasil, o Guys From Desert fala sobre o nascimento do conceito, os desafios da produção à distância, a relação entre liberdade criativa e responsabilidade artística dentro da Ethernal Sands, e como enxergam o futuro entre obras narrativas e faixas voltadas à pista. Confira agora:

Q+A: Guys From Desert

“Currents of a Leaf” nasce de uma metáfora clara entre correnteza e folha levada pelo vento. Em que momento do processo vocês perceberam que essa imagem poderia sustentar um álbum inteiro - e como ela guiou decisões musicais ao longo do disco?

Desde o início, a gente sentia que esse álbum precisava ter um sentido de percurso. Não era sobre juntar faixas, mas sobre acompanhar um movimento. As metáforas surgiram como uma forma de traduzir esse estado de busca, de deslocamento constante.

A imagem da folha levada pela corrente surgiu de forma natural. Ela carrega essa sensação de fragilidade e entrega, de quem segue mesmo sem controlar tudo. Quando entendemos que essa imagem conseguia atravessar o álbum inteiro, ela passou a guiar silenciosamente cada decisão - a energia das faixas, os espaços de respiro, as transições. Tudo passou a fazer parte de um mesmo fluxo.

O álbum marca uma fase mais conceitual e autoral do Guys From Desert. O que mudou internamente no projeto para que vocês se sentissem prontos para lançar um trabalho tão narrativo, menos imediato e mais contemplativo?

Esse álbum nasce quando a gente para de perguntar como deveria soar e começa a ouvir o que precisava ser dito. Foi um movimento de dentro para fora, menos preocupado com referências externas e mais atento ao que estava se acumulando ao longo do tempo.

A ideia de superação foi central. Queríamos entender e traduzir, em música, o significado do “Desert” no nosso nome. O deserto representa os períodos de dificuldade, vazio e incerteza que cada um viveu individualmente, até esse encontro no Guys From Desert.

Quando conseguimos enxergar isso com clareza, ficou natural contar uma história mais profunda, menos imediata e mais contemplativa, porque ela vinha de algo que realmente vivemos.

As faixas transitam entre introspecção, emoção e força, com contrastes bem definidos entre breaks e drops. Como vocês pensam essa dualidade emocional na construção das músicas, especialmente ao equilibrar sentimento e funcionalidade dentro da música eletrônica?

Sempre gostamos desse contraste entre momentos mais calmos e emotivos, com atmosferas abertas e vocais, e partes mais intensas, com drops diretos e cheios de energia. Para nós, isso não é apenas uma escolha estética, mas um reflexo do que é a própria vida.

Na construção das faixas, os breaks são esse lugar de suspensão, onde o tempo parece desacelerar. Os drops aparecem como resposta, não como ruptura. É nesse diálogo que as nossas músicas encontram equilíbrio, permitindo que elas existam tanto no corpo quanto na escuta mais íntima, mantendo sentimento sem perder a funcionalidade que a música eletrônica exige.

Produzir um álbum colaborativo vivendo em cidades diferentes exige método e confiança criativa. Quais foram os maiores desafios - e também os maiores aprendizados - desse processo de produção à distância?

Criar à distância nos ensinou que o processo não começa no estúdio. Ele começa no estado em que a gente chega até ali. Nem sempre estar conectado significa estar disponível para criar.

Com o tempo, entendemos que era preciso preparar o terreno: caminhar, respirar, silenciar um pouco antes de sentar para trabalhar. Respeitar o tempo do outro e o próprio tempo virou parte da composição. As músicas acabaram carregando essa escuta, esse cuidado, esse espaço entre uma coisa e outra.

A Ethernal Sands aparece não apenas como gravadora, mas como parte ativa da identidade do projeto. Como é lançar um álbum tão pessoal dentro de um selo que também é de vocês, e de que forma isso impacta liberdade criativa e responsabilidade artística?

Lançar um álbum dentro de uma gravadora que também é nossa muda a relação com o processo. A Ethernal Sands não atua apenas como um selo distribuidor, mas como uma plataforma que reflete diretamente a visão artística do projeto. O álbum, nesse contexto, se torna uma afirmação estética e curatorial, tanto do projeto quanto do selo.

Essa proximidade amplia a liberdade criativa, mas também aprofunda o senso de responsabilidade. Cada decisão carrega um peso simbólico maior, porque o catálogo passa a refletir não apenas um lançamento, mas uma visão de mundo, um recorte estético e uma forma de se posicionar dentro da cena.

Olhando para frente, vocês mencionam um trânsito natural entre trabalhos mais conceituais e faixas mais direcionadas à pista. Como vocês enxergam esse equilíbrio daqui pra frente: o lado artístico como ponto de partida ou como contraponto à energia club?

A gente não vê uma divisão rígida entre o que é conceitual e o que é pista. Vemos movimentos diferentes do mesmo impulso criativo.

Quando a música pede tempo, ela vira álbum, vira narrativa, vira espaço de contemplação. Quando pede corpo, impacto e presença, ela se transforma em faixa de club. Um não anula o outro. São linguagens distintas que coexistem e se alimentam, sempre partindo do mesmo lugar.

Currents of a Leaf confirma o Guys From Desert como um projeto que entende a pista como extensão da escuta e a narrativa como força motriz da criação - um álbum que convida à entrega, ao fluxo e ao tempo necessário para sentir.

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Imagens: Reprodução

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