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Abstract Festival 10 anos: uma década construindo identidade na cena eletrônica brasileira

Conversamos com Lucas Viana, da Overdrive Entertainment, sobre a evolução do Abstract, o impacto do festival na cena e o significado de uma edição que sintetiza passado, presente e futuro

  • Victor Flosi
  • 24 April 2026

Em um cenário cada vez mais saturado por fórmulas replicáveis e lineups previsíveis, poucos projetos na música eletrônica brasileira conseguiram sustentar uma identidade tão clara quanto o Abstract Festival.

Nascido em Goiânia - cidade que se consolidou como um dos pólos mais férteis da cena nacional - o evento chega aos 10 anos como algo que vai além do formato tradicional de festival: uma plataforma criativa onde música, conceito e experiência coexistem de forma consistente.

A marca de uma década não representa apenas longevidade, mas relevância. Ao longo desses anos, o Abstract acompanhou - e, em muitos momentos, impulsionou - transformações importantes dentro da música eletrônica brasileira, ajudando a revelar artistas, consolidar estéticas e propor novas formas de viver a pista.

Para celebrar esse momento, a edição de 10 anos traz um gesto simbólico à altura: um B3B entre Illusionize, Victor Lou e Visage - três nomes que compartilham origem, trajetória e influência direta na construção de uma identidade sonora que hoje ecoa dentro e fora do país.

Conversamos com Lucas Viana, da Overdrive Entertainment, mente por trás do Abstract, sobre os bastidores dessa jornada, o papel do festival na cena e os próximos passos de um projeto que, mesmo após 10 anos, segue em expansão.

Q+A: Lucas Viana

O Abstract chega aos 10 anos com um B3B entre Illusionize, Victor Lou e Visage - três nomes que ajudaram a moldar uma estética dentro da cena brasileira. Esse booking é simbólico ou estratégico?

Os dois. Existe um peso simbólico muito forte, porque estamos falando de artistas que cresceram juntos dentro da mesma cena, em Goiânia, e ajudaram a construir uma identidade própria.

Mas também é estratégico no sentido de representar exatamente o que o Abstract sempre foi: um espaço de convergência criativa. Não é só sobre juntar nomes grandes, é sobre criar um momento que faça sentido culturalmente.

O Abstract nunca se posicionou como um festival “convencional”. Como você enxerga essa construção de linguagem ao longo da última década?

Desde o início, a gente entendeu que precisava ir além do formato tradicional. O Abstract nasceu com essa proposta de criar uma narrativa - não só uma sequência de artistas.

A linguagem visual, os conceitos, a ideia de portal, de experiência imersiva… tudo isso foi sendo desenvolvido como parte central do projeto. Hoje, isso não é mais um diferencial, é a base.

Em um cenário saturado de eventos, o que ainda diferencia o Abstract na prática?

Intenção e coerência. Muita coisa hoje gira em torno de hype ou repetição de fórmula. No Abstract, cada decisão passa por uma curadoria muito clara - artística e conceitual.

Não é só sobre quem toca, mas sobre como aquilo se conecta com o todo. Quando você entra no festival, existe uma leitura, uma direção. Isso muda completamente a percepção do público.

Goiânia foi o ponto de partida de muitos artistas que hoje têm projeção nacional e internacional. Qual foi o papel da cidade na construção do festival?

Total. Goiânia tem uma cena muito orgânica e muito forte. Foi um terreno fértil para experimentação e troca. O Abstract nasce dentro desse contexto, então ele carrega essa energia até hoje. Trazer a edição de 10 anos de volta para esse eixo também é um reconhecimento dessa raiz.

O festival acompanhou - e de certa forma impulsionou - a ascensão de uma geração da música eletrônica brasileira. Você se vê como parte ativa dessa construção?

Sim, mas de forma natural. Nunca foi um objetivo “moldar a cena”, mas sim criar um espaço onde novas ideias pudessem existir. Com o tempo, isso acaba impactando o entorno. Muitos artistas passaram pelo Abstract em momentos importantes da carreira, e isso cria uma conexão real com a evolução da cena.

A estética do Abstract sempre flertou com o conceito de imersão e universos paralelos. Como isso se traduz nessa edição de 10 anos?

A gente aprofunda isso. A ideia não é só ambientar, é transportar. O público não entra em um evento - ele atravessa uma experiência. Tudo foi pensado para reforçar essa sensação: cenografia, luz, som, narrativa. É uma construção sensorial completa.

Existe um risco de um festival com identidade tão forte se tornar previsível com o tempo? Como vocês evitam isso?

Esse risco sempre existe. Por isso a gente trabalha com evolução constante.

A identidade não pode ser uma prisão - ela precisa ser uma base para inovação. O Abstract continua reconhecível, mas nunca igual. Esse equilíbrio é essencial.

O mercado brasileiro vive um momento de expansão, mas também de excesso. Como você lê esse cenário hoje?

É um momento interessante. Tem muita coisa acontecendo, o que é positivo, mas ao mesmo tempo existe uma saturação. Isso aumenta a importância da curadoria. O público está mais exigente, mais atento. Não basta mais entregar volume - precisa entregar significado.

Depois de 10 anos, o Abstract é mais um festival consolidado ou ainda um projeto em construção?

Totalmente em construção. Os 10 anos são um marco, mas não um ponto de chegada. É quase como um reset.

Tudo que foi feito até agora serve como base para o que vem depois. O Abstract nunca foi sobre estabilidade - sempre foi sobre movimento.

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Imagens: Divulgação

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