A IA vai substituir os criadores de hits musicais? Ou apenas se tornar sua ferramenta mais poderosa?
Entre algoritmos e acordes: o futuro da criação musical em debate
Toda revolução tecnológica segue mais ou menos o mesmo processo: de imediato, parece que todos os paradigmas serão quebrados, e o deslumbramento toma conta da opinião pública. Depois de um tempo, a novidade passa a ser avaliada com mais calma, com discussões sobre limites, uso responsável e impactos reais. Mas, no meio da música e da arte em geral, nunca existiu um fenômeno tão impactante quanto a inteligência artificial.
E, para o bem ou para o mal, são justamente as IAs generativas, ou seja, aquelas que produzem conteúdos em texto, áudio e vídeo, que mais são utilizadas e desenvolvidas na atualidade. Nesse sentido, já há iniciativas que criam bons conteúdos em grande escala, e isso afeta todos os mercados. A IA já aparece na criação de videogames, em partes do processo de produção de slots para plataformas de cassino legalizadas no Brasil, em efeitos especiais no cinema e em várias outras frentes.
Mas, e como ficam os grandes hitmakers? A IA vai substituir os cantores? Quem vai compor as letras?
O debate evoluiu rápido
A primeira grande polêmica entre a IA e o meio artístico foi a nítida preocupação se uma arte criada por inteligência artificial pode ser considerada legítima. Em um meio já muito competitivo e muitas vezes pouco valorizado, será que faz sentido incluir uma ferramenta sem sentimento e sem a parte mais subjetiva, própria do humano? Bom, foi o próprio tempo que demonstrou que essa discussão pode ser madura. E aqui não é necessário tomar partido.
Na prática, em poucos meses, perfis totalmente criados por IA começaram a viralizar, e no caso do Brasil, não há como ignorar o primeiro hit gerado por uma máquina. Esse foi a canção “Sina de Ofélia”, uma espécie de tradução da música lançada e popularizada por Taylor Swift no fim de 2025, “The Fate of Ophelia”.
A repercussão foi imensa, e essa deve ter sido a primeira prova de que a IA também pode gerar algo que faz sentido - mostrando que o efeito no público, no fim, é o que acaba importando. Nesse caso, a voz utilizada parece ter sido de Luiza Sonza, bem popular no Brasil. Então, ela partiu de uma voz já aceita e validada no mercado, mas foi totalmente gerada por inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, outras músicas também começaram a ganhar corpo internacionalmente, e as músicas de IA deixaram de ser facilmente perceptíveis - nesse campo, a IA generativa ganhou um destaque imenso. É por isso que hoje, então, o debate já está em outro nível. Agora, com a adoção disso por grandes empresas e produtos, a questão passa a ser: como conviver com uma tecnologia com potencial para substituir quase totalmente a produção humana?
A IA vai “substituir”? Quem responde isso são os ouvintes
Embora muitos músicos protestem contra a entrada da IA em diferentes etapas, desde a escrita até a gravação, o fato é que, no fim, quem acaba mandando é o público. Mas como as pessoas têm recebido isso de verdade? A percepção também vem mudando rápido. Veja resultados de uma pesquisa do Deezer em conjunto com o Ipsos, realizada em 8 países com 9.000 pessoas:
Esses 4 dados são apenas uma parte de vários insights trazidos pela pesquisa, mas isso já ajuda a entender como o público pensa. Fica nítido que a sensação de ouvir apenas músicas de IA é, para a maioria das pessoas, algo que ainda parece estranho.
Não por acaso, 52% se sentem desconfortáveis em não saber a diferença. Além disso, 45% gostaria de excluir essas criações de suas plataformas. Isso levanta um debate importante - e que não vem sendo ignorado pelas plataformas.
Os movimentos de bloqueio e restrição de conteúdos IA
Nessa altura do campeonato, uma coisa já ficou clara: a IA permite a massificação do conteúdo, e no fim, isso acaba gerando muitos resultados que desagradam os usuários: simples assim. E claro, as plataformas já detectaram esse efeito.
Não por acaso, o exemplo do Spotify, que removeu mais de 70 milhões de músicas spam geradas por IA, e o Youtube, que vem apertando as regras e pode restringir a monetização de conteúdo massificado de IA. Então, aqueles que estavam empolgados para se tornar o próximo hitmaker em poucos dias, agora já veem que as coisas não serão tão fáceis assim.
A inteligência artificial vai substituir os grandes artistas?
Afinal, a IA é uma ameaça mesmo? É claro que isso ainda não está totalmente claro, mas alguns efeitos já estão sendo inevitáveis:
Há previsões que indicam expansão do mercado de músicas por IA em mais de 1.000% até 2028. A IA também pode tomar uma boa parte da receita dos serviços de streaming.
Há estudos revelando que mais de 80% dos artistas já usam inteligência artificial nos seus processos de produção musical. Ou seja, o meio já vem incorporando a ferramenta.
A ideia é que essas ferramentas substituam, principalmente, músicas funcionais e básicas. Isso é, canções de loja, elevador, shopping e games de baixo orçamento, por exemplo. Já os hits envolvem muito mais do que escrever e gravar: eles envolvem narrativa, timing cultural, performance e conexão com o público.
Porém, o outro lado da história também é relevante. A imensa maioria dos músicos, segundo diferentes estudos, sentem preocupação com o impacto da IA, e ainda creem que ela compete diretamente com trabalhos humanos.
Ainda há, claro, a discussão e a cobrança pela exigência dos direitos autorais das músicas utilizadas para treinar essas ferramentas. Um uso justo é fundamental, isso é inegável.
Qual o maior risco?
Embora fique claro que sim, a IA pode competir diretamente com os hitmakers humanos, o maior risco talvez não seja a substituição. Na realidade, a grande preocupação é a transferência do valor de mercado para empresas de tecnologia, e não mais para os criadores. Assim, a ideia de quem pode ser um hitmaker é deslocada, e isso abre janela para outro tipo de empresário - ou de artista? Talvez uma mistura dos dois.
Por fim, uma boa comparação, por exemplo, pode ser da relação entre a fotografia e a pintura. No advento da fotografia, a pintura perdeu bastante valor e se rearticulou enquanto arte. Isso impactou muitos pintores? Sim, e isso mostra que a tecnologia sempre tem dois lados, mas não pode, nunca, excluir o valor do que é 100% humano.
Imagem: IA House

