Interviews
De Milão ao Rock in Rio: a expansão global do MEDUZA
Luca, Mattia e Simone falam sobre a nova fase do projeto, a relação com o Brasil e a tentativa de colocar a dance music no centro da cultura pop
Durante anos, o mundo conheceu o MEDUZA antes de realmente conhecer de verdade o MEDUZA. ‘Piece of Your Heart’, ‘Lose Control’, ‘Paradise’ e ‘Bad Memories’ atravessaram rádios, clubs e festivais em uma velocidade impressionante, acumularam mais de 20 bilhões de streams e colocaram o projeto entre os maiores nomes da música eletrônica atual.
Ainda assim, para uma parte considerável do público, o trio formado por Luca de Gregorio, Mattia Vitale e Simone Giani continuava escondido atrás das próprias músicas; mas em 2026 eles decidiram mudar essa imagem.
O MEDUZA³ coloca os três no mesmo palco e transforma o repertório que conquistou o mundo em uma apresentação conduzida por instrumentos, sistemas MIDI, intervenções em tempo real e rearranjos que aproximam o público do trabalho desenvolvido dentro do estúdio.
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Mais do que ampliar um DJ set, o formato revela uma estrutura mais humana e musical de um projeto que agora quer levar a dance music para além dos clubs e dos festivais tradicionais - e o Brasil será uma parada fundamental nessa nova fase.
No dia 6 de setembro, o MEDUZA³ chega ao Rock in Rio para sua única apresentação completa no país, ocupando um festival em que diferentes gêneros, gerações e públicos se encontram. Na véspera, dia 5, Simone também representa o projeto em um DJ set no Laroc Guarujá.
Antes das duas datas, conversamos com Luca, Mattia e Simone sobre a transformação do MEDUZA, o equilíbrio entre o pop e a pista, a construção do novo show e a ambição de fazer a música eletrônica ser tratada como parte central da cultura pop.
Q+A: MEDUZA
Olá, Luca, Mattia e Simone, tudo bem? Obrigado por conversarem com a Mixmag Brasil. Queria começar justamente pelo momento que vocês estão vivendo agora, porque 2026 parece marcar uma nova evolução do MEDUZA, tanto musicalmente quanto no palco. Ao mesmo tempo em que retomam com força o lado pop-dance, vocês apresentam o MEDUZA³ e ampliam o projeto para festivais e espaços que vão além do circuito eletrônico tradicional. Como vocês definem essa fase e o que sentem que mais mudou dentro do projeto?
Olá, é um prazer falar com a Mixmag! E realmente, parece um novo capítulo para nós. Sempre gostamos de viver entre a composição mais emocional e a cultura dos clubes, e durante muito tempo achamos que precisávamos escolher qual desses lados iria liderar o projeto. Hoje não sentimos mais essa necessidade.
O MEDUZA³ é o formato que finalmente permite que os dois coexistam na mesma noite. A maior mudança é que estamos mostrando mais quem realmente somos, não só através das músicas, mas também da forma como as apresentamos ao vivo.
Inclusive, durante muito tempo, parte do público conhecia as músicas e assistia aos shows sem saber exatamente que o MEDUZA era formado por três pessoas. Colocar o trio inteiro no palco também é uma forma de mostrar melhor quem vocês são como projeto?
Exatamente. Sempre fomos três pessoas por trás de cada música do MEDUZA, mas isso não era tão claro para muita gente. Levar nós três para o palco é simplesmente mais honesto, porque é assim que a música realmente acontece. Cada um tem uma função diferente no estúdio, e agora as pessoas conseguem ver essa dinâmica ao vivo, em vez de apenas ouvir o resultado final.
Aliás, aqui no Brasil, Simone toca sozinho no Laroc Guarujá no dia 5 de setembro, e no dia seguinte vocês apresentam o MEDUZA³ completo no Rock in Rio. O que muda quando o MEDUZA deixa de ser um DJ set e passa a ser uma experiência construída pelos três?
A energia muda completamente. Um DJ set é uma conversa: você lê a pista e conduz as pessoas por uma jornada. O MEDUZA3 é um show pensado do começo ao fim. Tem instrumentos, arranjos que só existem nessa versão. É uma experiência muito mais imersiva e nos permite alcançar o público de uma forma que um DJ set nunca conseguiria.
Vocês já adiantaram que piano, teclados, músicas novas e rearranjos dos clássicos estarão no show. Como estão preparando essa apresentação para o Rock in Rio? Existe espaço para improvisar e mudar coisas ao vivo?
O Rock in Rio é um daqueles festivais em que você quer entregar algo que só acontece uma vez. Passamos meses reconstruindo nossas próprias músicas do zero. Algumas ficaram mais lentas, outras ganharam harmonias completamente diferentes, e tem faixas que você nem vai reconhecer até a voz entrar. Mas fizemos questão de não deixar tudo preso a um roteiro rígido.
Sempre existe espaço para estender uma parte ou mudar alguma coisa se o público levar a gente nessa direção. E, normalmente, são justamente esses momentos inesperados que as pessoas mais lembram.
O convite também coloca o MEDUZA dentro de um festival que reúne públicos de muitos gêneros diferentes. Vocês enxergam o Rock in Rio como uma oportunidade de mostrar que a dance music pode ocupar qualquer grande palco, não apenas clubs e festivais eletrônicos?
Com certeza. Ainda existe uma ideia antiga de que música eletrônica só pertence a uma pista escura às quatro da manhã, e nós nunca acreditamos nisso. Hoje em dia as pessoas não escutam música pensando em gêneros; elas só querem sentir alguma coisa. Um festival como o Rock in Rio coloca você diante de um público que, muitas vezes, veio assistir a algo completamente diferente. E esse é o melhor teste que existe.
‘Weekend’, com Khalid, retoma um lado mais pop do projeto, enquanto vocês continuam lançando e tocando músicas voltadas aos clubs, como ‘7 Days’, junto do Kevin de Vries. Como equilibram essas duas identidades sem deixar que uma delas pareça secundária?
Podemos ser sinceros? Para nós, esse conflito nem existe. "Weekend" nasceu ali mesmo, no estúdio, com o Khalid. Estávamos apenas tocando piano e a voz dele levou a música para um lugar completamente novo. O timbre que ele tem é único, parece que a música simplesmente acontece quando ele começa a cantar, e isso foi uma inspiração enorme naquela sessão. Não é o tipo de faixa que você planeja; você simplesmente acompanha o caminho que ela vai tomando.
Já "7 Days" nasceu do lado oposto. Fizemos essa música porque queríamos tocá-la às três da manhã em um clube. Nenhuma delas representa o "verdadeiro" MEDUZA enquanto a outra seria apenas um projeto paralelo. Se empolga nós três, ela faz parte do MEDUZA.
Depois de tantos hits e bilhões de streams, o que precisa acontecer para que os três concordem que uma música está realmente pronta para ser lançada?
Vai um pouco com o que falamos anteriormente: ela precisa provocar a mesma sensação nos três. Se um de nós não estiver convencido, ela simplesmente não sai. Às vezes passamos meses ajustando detalhes minúsculos, mas sempre chega um momento em que ninguém mais sente vontade de mexer nela. Aí levamos para o palco. Ver a reação de uma pista revela coisas que o estúdio nunca consegue mostrar e, às vezes, revela até algo que você não queria ouvir.
Também existem novas colaborações a caminho com outros artistas O que vocês procuram em uma parceria hoje: alguém que combine com o universo do MEDUZA ou alguém que possa levá-los para um lugar diferente? E tem algum brasileiro com quem gostariam de colaborar?
Um pouco dos dois. As melhores colaborações nascem do respeito mútuo, mas também de alguém que te leva para um lugar onde você provavelmente não chegaria sozinho. Se no fim das contas soa apenas como uma música do MEDUZA com outra voz por cima, então não fizemos nada de realmente novo.
Falando do Brasil, a Luísa Sonza é uma artista com quem adoraríamos trabalhar. A voz dela combinaria muito com o tipo de música que fazemos. E o grupo Os Garotin está em um universo completamente diferente, mas justamente por isso seria interessante. O calor e o groove que eles têm é algo que nós jamais conseguiríamos criar sozinhos. Se existir química de verdade, estamos abertos às duas possibilidades.
Vocês já viveram momentos importantes no Brasil, do Só Track Boa ao Green Valley e Lollapalooza. O que mais marcou essa relação com o público daqui ao longo dos anos? Alguma memória em específico segue mais vivo na cabeça de algum de vocês?
O Brasil sempre foi um dos lugares mais especiais para nós. A primeira coisa que impressiona é que as músicas chegam antes da gente. As pessoas cantam as melodias, não apenas as letras.
E não podemos deixar de mencionar o Lollapalooza. Ouvir aquela multidão cantando "Lose Control" daquele jeito e ver cada pessoa vivendo aquele momento à sua maneira foi algo inesquecível. É o tipo de experiência que muda até a forma como você toca, porque você para de se preocupar em conquistar o público e simplesmente vive aquele momento junto com ele.
E por acaso existe algum ritual antes de os três entrarem juntos no palco?
Nada muito maluco. A gente conversa rapidamente, confere se está todo mundo bem, normalmente dá uma risada e, logo antes de entrar, fazemos aquele abraço de equipe. É um gesto simples, mas é o momento que nos lembra que continuamos sendo nós três fazendo tudo isso juntos.
Pra finalizarmos nossa conversa, no que vocês estão mais focados neste momento e qual é o próximo passo que gostariam de alcançar com o projeto? E uma última mensagem para os fãs brasileiros? Obrigado!
Neste momento estamos totalmente focados em fazer o MEDUZA³ crescer e em continuar criando músicas que surpreendam as pessoas, sejam faixas para os clubes ou canções, sem tratar essas duas coisas como carreiras diferentes. Queremos que cada show seja vivido como uma experiência, e não apenas como uma apresentação.
E, para os nossos fãs brasileiros, muito obrigado por todo o carinho ao longo desses anos. Toda vez que voltamos ao Brasil vocês fazem a gente se sentir em casa. Nos vemos no Laroc e no Rock in Rio. Vai ser realmente muito especial.
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Imagens: Divulgação

