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Industry Insider

Victor Flosi fala sobre relações públicas, networking e os bastidores da indústria da música eletrônica

Profissional compartilha sua visão sobre carreiras, comunidade e a internacionalização da cena eletrônica brasileira

  • Eliézer de Souza
  • 21 August 2026

Formado em Economia e Direito, com mestrado em Relações Internacionais, Victor Flosi chegou a imaginar uma carreira diplomática antes de encontrar na música eletrônica um novo caminho profissional. Ao longo de mais de uma década, ampliou sua atuação entre comunicação, marketing, PR, A&R, gestão de artistas, curadoria e desenvolvimento de negócios.

Sua trajetória inclui passagens por Play BPM, DGTL São Paulo, Ultra Brasil, Plusnetwork, Cactunes Records e Crema Club, além da fundação da Drop Times e da criação da Das Musik. Paralelamente, construiu uma perspectiva internacional sobre o mercado, tendo acompanhado mais de 200 festivais em mais de 50 países e frequentado regularmente o Amsterdam Dance Event desde 2016.

Essa experiência ajudou a moldar uma atuação baseada em conexões entre artistas, público, marcas, imprensa e oportunidades. Para Victor, networking, confiança e relacionamentos de longo prazo ocupam um papel central na indústria, enquanto o desenvolvimento de comunidades ganha importância em um mercado cada vez mais orientado por números, plataformas e transformações tecnológicas.

Com atenção especial à internacionalização da música eletrônica brasileira, Victor acompanha de perto o crescimento de artistas, eventos e profissionais do país no circuito global. Sua visão combina estratégia e cultura de pista, partindo da ideia de que experiências, identidade e comunidade continuam fundamentais para construir carreiras consistentes e fortalecer a presença brasileira além de suas fronteiras.

Q+A: Victor Flosi

Como você costuma explicar o seu trabalho para pessoas de fora da indústria da música?

Eu costumo dizer que meu trabalho é conectar pessoas. Conecto artistas ao público, marcas à cultura, festivais à imprensa e talentos às oportunidades certas. A música eletrônica é o centro de tudo, mas o que eu faço envolve estratégia, comunicação, posicionamento, desenvolvimento de carreira e construção de relacionamentos. Meu papel é ajudar boas histórias a chegarem às pessoas certas.

Você pode nos contar como foi sua trajetória até a indústria da música? Quais foram os momentos mais importantes que definiram esse caminho?

Minha formação é em Economia e Direito, com mestrado em Relações Internacionais. Durante muito tempo imaginei que seguiria uma carreira diplomática, mas a música acabou falando mais alto. Entrei pela comunicação, depois pelo marketing e fui ampliando minha atuação para PR, A&R, gestão de artistas, curadoria e desenvolvimento de negócios.

Passar por empresas como Play BPM, DGTL São Paulo, Ultra Brasil, Plusnetwork, Cactunes Records, Crema Club, fundar a Drop Times e criar a Das Musik foram etapas que me deram uma visão muito ampla da indústria. Outro divisor de águas foi começar a frequentar eventos internacionais regularmente. Conhecer dezenas de mercados diferentes mudou completamente minha forma de enxergar o potencial da cena brasileira.

Como é uma semana típica da sua rotina hoje e de que forma ela mudou ao longo dos anos?

Nenhuma semana é igual à outra. Posso começar o dia em uma reunião sobre lançamento de um artista, seguir para uma estratégia de comunicação de um festival, fazer entrevistas, conversar com agentes internacionais e terminar escrevendo um press release.

Antes minha rotina era muito operacional. Hoje ela é muito mais estratégica. Passei a dedicar mais tempo ao desenvolvimento de projetos, construção de parcerias internacionais e planejamento de longo prazo.

Quais são os maiores desafios da sua função atualmente e como você lida com eles?

O maior desafio é acompanhar a velocidade com que a indústria muda. Plataformas mudam, algoritmos mudam, tendências surgem e desaparecem muito rápido.

Ao mesmo tempo, acredito que alguns fundamentos nunca mudam: construir confiança, entregar qualidade e criar conexões verdadeiras. Tento acompanhar as novidades sem perder esses princípios.

Como você define sucesso no seu trabalho, tanto do ponto de vista profissional quanto pessoal?

Profissionalmente, sucesso é ver um artista crescer de forma consistente e sustentável, ou um projeto ganhar relevância internacional sem perder sua identidade.

Pessoalmente, sucesso é continuar apaixonado pelo que faço depois de tantos anos. Ainda sentir vontade de descobrir um novo artista, viajar para um festival ou conversar sobre música já significa muito para mim. Criar essas novas conexões e continuar desenvolvendo nossa indústria nacional é algo que me move todos os dias.

Existe muito debate sobre os desafios enfrentados pela indústria. Quais tendências positivas fazem você acreditar no futuro desse mercado?

Vejo uma profissionalização cada vez maior. Os artistas entendem mais de branding, as equipes trabalham de forma mais integrada e existe uma preocupação crescente com experiências completas, não apenas com o line-up.

Também acredito muito na internacionalização da música eletrônica brasileira. O mundo está olhando para o Brasil de uma forma diferente, tanto pelos artistas quanto pela criatividade dos nossos eventos e pela força da nossa comunidade. Vejo que isso vale ouro e sabendo utilizar ao seu favor pode fazer toda a diferença.

Como a capacidade de aprender e se adaptar influencia o seu trabalho hoje? Existe algo que você tenha aprendido recentemente e que tenha mudado sua forma de enxergar o mercado?

Aprender deixou de ser uma vantagem e virou uma obrigação.

Recentemente tenho refletido muito sobre como construir carreiras pensando em comunidade, e não apenas em alcance. Números são importantes, mas relacionamentos duradouros são muito mais valiosos. Um artista pode ter milhões de visualizações, mas quem constrói uma comunidade cria uma carreira.

É sobre deixar um legado. Tanto pra história da música eletrônica quanto para as experiências vividas pelos fãs.

Que conselho você daria para quem deseja construir uma carreira na música fora da cabine de DJ?

Conheça a indústria como um todo. Entenda marketing, contratos, comunicação, produção, direitos autorais, distribuição, networking e gestão. Não que ele tenha que fazer tudo, mas precisa entender sobre tudo.

E, principalmente, seja alguém em quem as pessoas possam confiar. Competência abre portas, mas reputação mantém essas portas abertas.

Como você equilibra o lado estratégico do seu trabalho com a paixão pela cultura das pistas?

Nunca quis enxergar a música apenas como um produto. Sempre tento lembrar por que essa cultura existe: pessoas se reunindo para viver experiências, ter momentos inesquecíveis e transformadores.

A estratégia precisa servir a cultura, e não o contrário. Quando isso acontece, as decisões fazem muito mais sentido. Assim podemos seguir fazendo, se alimentando de momentos especiais na pista para transformá-los em combustível para trabalhar.

Depois de vivenciar inúmeros festivais em dezenas de países, como você mantém essa conexão com a cena e sua comunidade?

Continuo frequentando eventos com curiosidade. Gosto de observar desde a operação até o comportamento do público. Converso com artistas, produtores, jornalistas, fãs e profissionais de todas as áreas.

Viajar tanto me mostrou que cada cena tem sua identidade, mas todas compartilham o mesmo sentimento de comunidade. O propósito é o mesmo. Mas entender as especificidades é crucial.

Existem tecnologias ou tendências que você acredita estarem recebendo atenção além do que realmente merecem hoje?

Acho que existe uma expectativa exagerada de que tecnologia resolva tudo.

Ferramentas como inteligência artificial vão transformar processos, mas não substituem criatividade, visão artística, curadoria e sensibilidade humana. No fim do dia, as pessoas continuam buscando emoção.

Usar as ferramentas para agilizar seu dia é essencial atualmente, porém o fator humano ainda dita como os projetos serão desenvolvidos.

Como você mantém o foco e o equilíbrio em uma profissão tão dinâmica?

Aprendi a priorizar. Nem toda oportunidade precisa ser aproveitada. E isso é bem difícil.

Também tento reservar momentos para simplesmente consumir música sem pensar em trabalho. Isso ajuda a lembrar por que comecei nessa indústria e por que quero seguir nela.

Além dos artistas, quem foram algumas das pessoas da indústria que mais inspiraram sua trajetória quando você começou?

Sempre admirei profissionais que trabalham nos bastidores e constroem carreiras sem necessariamente aparecer.

Também fui muito inspirado por jornalistas, curadores, empresários e fundadores de festivais que conseguiram criar movimentos culturais, e não apenas eventos. Eles me mostraram que a indústria é feita por muito mais gente do que apenas quem sobe ao palco. Quando você entende isso, a sua visão do todo muda completamente.

Para citar alguns profissionais: Edo van Duijn, Silvio Conchon, Du Serena, Edu Poppo, José Woldring, entre outros.

Quais características você acredita que definem um grande profissional de negócios nesse mercado?

Visão de longo prazo, capacidade de ouvir, ética, curiosidade, inteligência emocional e consistência.

A música é uma indústria baseada em relacionamentos. Quem entende isso normalmente constrói carreiras muito mais duradouras.

Que conselho você daria para quem deseja construir uma carreira nos bastidores da música? Quais competências fazem mais diferença hoje?

Aprenda a resolver problemas. Seja alguém que facilita processos, e não que cria obstáculos.

Também diria para estudar muito. Entender negócios, marketing, comportamento, tecnologia e comunicação faz tanta diferença quanto conhecer música eletrônica.

E nunca subestime o poder de um bom networking construído com respeito e autenticidade. Isso cria oportunidades e abre portas.

Como é a sua relação com a música quando o trabalho fica de lado? Você ainda vai para a pista, descobre artistas novos ou escuta música de um jeito diferente?

Continuo indo para a pista porque ela é a origem de tudo. É lá que as tendências realmente nascem. Sentir a energia da pista é o que move tudo.

Ainda descubro muitos artistas novos, acompanho selos, rádios e cenas locais quando viajo. Claro que hoje escuto música também com um olhar profissional, mas tento nunca perder a capacidade de simplesmente aproveitar um bom set. Acho que essa paixão genuína é justamente o que me mantém conectado à cultura depois de tantos anos.

Photos: Fernando Sigma

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