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Industry Insider

Mariann Krott: duas décadas por trás de turnês globais de música eletrônica

Em uma conversa exclusiva, Mariann Krott revisita momentos decisivos da carreira e analisa os desafios de manter artistas, festivais e turnês conectados ao redor do mundo

  • Lorena Dias
  • 3 June 2026

Há mais de duas décadas, Mariann Krott atua nos bastidores de algumas das engrenagens que mantêm a indústria global da música eletrônica em movimento. Entre gestão de artistas, turnês internacionais e grandes eventos, a profissional alemã construiu uma carreira marcada pela coordenação de operações complexas e pela capacidade de navegar os desafios logísticos de um setor cada vez mais global.

Sua trajetória inclui vários anos ao lado de Paul van Dyk, período em que trabalhou com artistas como Giuseppe Ottaviani, Filo & Peri, Genix, Ben Nicky, Chris Bekker e Alex M.O.R.P.H., além de participar de projetos ligados ao Tomorrowland, às comemorações dos 20 anos da queda do Muro de Berlim e ao festival We Are One, realizado na O2 Arena, em Berlim.

Desde a fundação da mc MES, em 2016, ampliou sua atuação internacional e passou a colaborar com artistas como Robin Schulz, Martin Garrix, Armin van Buuren, Nicky Romero, Zedd, HUGEL, KAAZE, Roger Shah e Pretty Pink.

Para esta edição do Industry Insider, Mariann Krott compartilha sua visão sobre gestão de turnês, operações globais, adaptabilidade e os aprendizados acumulados ao longo de mais de vinte anos na indústria da música eletrônica.

Q+A: Mariann Krott

Como você explica o seu trabalho para pessoas de fora da indústria?

Trabalho com gestão de artistas e turnês. Sou especializada principalmente em tudo o que envolve tour management, o que inclui muitas coisas que o público nunca vê.

Desde o trabalho administrativo após a confirmação de um booking, passando pela logística antes e durante os dias de show, até os relatórios finais, prestação de contas e todo o processo posterior aos eventos.

Você pode nos contar sobre sua trajetória na indústria da música? Quais foram os momentos mais importantes que definiram seu caminho?

Estudei gestão de eventos e trabalhei em uma casa de shows e escritório de promoção em Colônia, na Alemanha, antes de começar a trabalhar no escritório de Paul van Dyk enquanto concluía meus estudos.

Meu primeiro evento com Paul foi um show realizado com a Orquestra HR de Frankfurt, além da banda e dos cantores que o acompanhavam na época, incluindo Johnny McDaid, em 2009.

Foi algo extremamente impressionante e muito à frente do seu tempo. A logística e o nível de detalhamento envolvidos foram extraordinários. É uma experiência que ainda hoje me emociona e da qual tenho muito orgulho de ter participado.

Além da gestão de artistas, bookings e turnês no escritório de Paul, onde também trabalhei com nomes como Giuseppe Ottaviani e Filo & Peri, alguns dos momentos mais marcantes daquela fase foram a realização de um palco da VANDIT no Tomorrowland em 2009 e, claro, o próprio set de Paul no palco principal do festival.

Outro destaque foi sua apresentação em frente ao Portão de Brandemburgo durante as celebrações dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, também em 2009, além do trabalho nas lendárias VANDIT Nights em diferentes cidades e da participação no festival We Are One, realizado na O2 Arena, em Berlim, em 2010, ao lado de Armin van Buuren e Underworld.

Mais tarde, decidi trabalhar por um período em um escritório de promoção em Düsseldorf para conhecer outros aspectos do mercado de eventos e entretenimento.

Acabei participando de shows de artistas e bandas como Bon Jovi, Katy Perry, Take That e muitos outros. Foi uma oportunidade de aprender sobre uma escala completamente diferente de gestão de eventos e turnês.

Depois disso, retornei ao escritório de Paul van Dyk por mais alguns anos, assumindo também o trabalho com artistas como Genix, Ben Nicky, Stefan Dabruck, Chris Bekker e Alex Morph, antes de fundar a mc MES em 2016.

Desde então, através da empresa, trabalhei com artistas como Jaytech, Ruben de Ronde, Robin Schulz, Jorn van Deynhoven, Talla 2XLC, HUGEL, Zedd, RODG, Glockenbach, Marten Horger, Myon, Nicky Romero, KAAZE, Fatum, Martin Garrix, Roger Shah, Pretty Pink, Armin van Buuren e muitos outros.

Como é uma semana típica para você atualmente e como isso mudou ao longo do tempo?

Uma semana típica geralmente significa passar muitas horas em frente ao computador resolvendo problemas ao longo do dia. Mas também envolve horários pouco convencionais. Trabalhar cedo pela manhã ou tarde da noite faz parte da rotina por causa dos diferentes fusos horários com os quais lidamos diariamente.

Os shows precisam ser planejados e organizados com antecedência, e há uma enorme quantidade de detalhes envolvidos, especialmente tarefas administrativas que muitas pessoas nem imaginam. Tudo começa com a documentação necessária quando um booking é confirmado, passa pela organização de viagens e logística, pela execução do evento e termina com o relatório final de cada apresentação.

Quais são os maiores desafios da sua função atualmente e como você lida com eles?

Diria que o maior desafio hoje é o imprevisível, especialmente quando se trata de viagens. O clima está cada vez mais extremo em comparação com dez ou vinte anos atrás, o que gera problemas logísticos, principalmente relacionados a voos, atrasos e cancelamentos.

Além disso, festivais e eventos ao ar livre podem precisar ser cancelados ou remarcados devido às condições climáticas, muitas vezes com pouco tempo de antecedência. Também passamos por uma pandemia que impactou profundamente nossa indústria e criou inúmeros desafios que precisaram ser superados.

Outro ponto importante são as regras e regulamentações cada vez mais rigorosas para viagens e vistos ao redor do mundo. Isso inclui tempos de processamento mais longos para vistos americanos e novas exigências para entrar no Reino Unido após sua saída da União Europeia.

Como você define sucesso no seu trabalho, tanto para sua empresa quanto para você mesma?

Considero cada booking e cada show que ajudamos a realizar para nossos clientes um sucesso. Gosto de celebrar as pequenas conquistas ao longo do caminho.

Amo o que faço e acredito genuinamente que, quando existe vontade, existe uma solução. Os obstáculos fazem parte do processo e ajudam a valorizar as vitórias, mesmo as menores. Muitas vezes as pessoas ficam tão focadas no próximo objetivo que esquecem o quanto já avançaram e o quanto já conquistaram.

Existe muito pessimismo em torno da indústria da vida noturna. Quais tendências positivas você acredita que estão moldando o futuro desse setor?

Infelizmente, existe um estigma que a indústria enfrenta há muito tempo e que provavelmente continuará existindo por muitos anos.

Ao mesmo tempo, acredito que a música sempre criou um espaço onde as pessoas podem se desconectar das pressões da realidade.

É uma oportunidade de esquecer os problemas por algumas horas, sentir a música, absorver energia positiva, conhecer novas pessoas, dançar e criar memórias inesquecíveis.

Qual é a importância da adaptabilidade e do aprendizado contínuo na sua função? O que você aprendeu recentemente?

É algo essencial. As regras, regulamentações e processos mudam mais rápido do que nunca. Por isso, é preciso estar sempre atualizada e pronta para se adaptar.

Tenho a sensação de aprender algo novo todos os dias. Construí minha reputação justamente por conseguir me adaptar rapidamente a novas situações e encontrar soluções para desafios que pareciam impossíveis.

Recentemente, aprendi a utilizar mais ferramentas de inteligência artificial em diferentes aspectos do meu trabalho e continuo aprendendo.

Ainda prefiro muitos processos mais tradicionais quando possível, mas reconheço que essa tecnologia faz parte do futuro e precisamos aprender a utilizá-la.

Que conselho você daria para quem quer construir uma carreira na música fora da área de DJ?

Persistência é fundamental. Só porque algo é difícil não significa que não possa dar certo.

Continue acreditando nos seus objetivos e em si mesmo. Seja trabalhando nos bastidores ou como artista, dedicação e perseverança continuam sendo elementos essenciais para construir uma carreira duradoura.

Como você equilibra o lado empresarial e o lado criativo do seu trabalho?

Por mais surpreendente que pareça, a parte administrativa e logística exige muita criatividade. Na minha visão, uma não funciona sem a outra.

Enquanto os artistas com quem trabalho expressam sua criatividade através da música, eu preciso aplicar criatividade na organização e execução dos bastidores para fazer tudo funcionar. É uma forma diferente de criatividade, mas igualmente importante.

Como você se mantém conectada à cultura e à comunidade?

Depois de tantos anos trabalhando na indústria, muitas pessoas deixaram de ser apenas colegas e se tornaram amigos próximos ou até mesmo família.

Compartilhamos não apenas os altos e baixos profissionais, mas também momentos pessoais importantes. Isso cria conexões muito fortes, especialmente durante as turnês.

Mesmo quando passamos muito tempo sem nos encontrar, eventos como a Miami Music Week ou o Amsterdam Dance Event costumam reunir novamente essas pessoas. E quando isso acontece, parece que nenhum tempo passou.

Existe alguma tecnologia ou tendência que você considera superestimada na indústria da música eletrônica atualmente?

Como não atuo diretamente na parte artística, é uma pergunta difícil de responder.

De forma geral, acredito que a inteligência artificial receba mais atenção do que merece neste momento, embora essa percepção também esteja relacionada ao fato de eu ainda estar aprendendo a utilizá-la e entendê-la melhor.

Como você mantém o foco, o equilíbrio e a saúde mental para lidar com essa função?

Faço questão de manter uma vida fora do trabalho. No meu caso, isso inclui meus cachorros, que curiosamente receberam nomes inspirados em gravadoras.

Além disso, pratico exercícios físicos regularmente, especialmente Pilates.

Além dos artistas, quem foram algumas das suas inspirações do ponto de vista profissional quando você entrou na indústria da música eletrônica?

Definitivamente Markus Scholz, da MACORMA Artist Management, Michele Servais, da Disco Donnie Presents, Matt Cheshire, do The Needs Group, e Mac Clark, da CAA.

Foram pessoas com quem trabalhei de perto quando comecei no escritório de Paul van Dyk e que me ensinaram muito sobre a indústria.

Mais tarde, Giuseppe Ottaviani também teve um papel importante, já que foi um dos primeiros artistas eletrônicos pelos quais fui responsável em termos de gestão artística, booking e turnês.

Também preciso mencionar Jenny Walzer, da Sony Music Germany, que se tornou uma referência no mercado fonográfico e uma das minhas amigas mais próximas.

Quais características fazem um grande profissional de negócios dentro da indústria da música eletrônica?

Paciência, calma, consistência e determinação são características essenciais, não apenas na música eletrônica, mas em qualquer setor.

Uma vez ouvi uma frase que ficou comigo: “Como ter sucesso? Foque no seu próprio trabalho.” E acredito que ela continua extremamente relevante.

Que conselho você daria para jovens que desejam trabalhar na cena eletrônica em uma empresa de eventos como a sua?

Seguir exatamente esses princípios e essa filosofia.

Qual é a sua relação pessoal com a música eletrônica? Você toca como DJ, coleciona discos ou ainda frequenta pistas de dança?

Gosto muito de música eletrônica. Existem inúmeras faixas que carregam memórias importantes e que trazem essas lembranças de volta toda vez que as escuto.

Não sou DJ, mas estou presente em muitos eventos por causa do meu trabalho.

Talvez a maior satisfação que eu tenha seja ver as pessoas vivendo momentos especiais em um show. Em alguns casos, experiências que acontecem apenas uma vez na vida.

Ver pessoas felizes, conectadas à música e aproveitando aquele momento sabendo que contribuí de alguma forma para tornar aquilo possível é uma sensação extraordinária.

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Imagens: Divulgação

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